O Contista Crônico

Monday, May 24, 2010

POEMAS SINFÔNICOS

Amigos que acompanham este blog,

Há muito tempo não publico aqui e, recentemente, iniciei um novo blog com meus novos contos que pretendo, em breve, colocá-los em livro.

Me acompanhem no novo blog: http://poemassinfonicos.blogspot.com/

O "Contista Crônico" acaba aqui. O blog ficará mais algum tempo no ar, mas logo não existirá mais.

Um abraço a todos e nos vemos no Poemas Sinfônicos!

Thursday, January 24, 2008

A Violoncelista


Limpando os lábios e lambendo os dedos, sorria ladina. Carregava uma garrafa de Stolichnaya na mão, cantarolando e retorcendo preguiçosamente o esquálido quadril. A calcinha, meio enrolada, estampada com cachorrinhos que deixava a mostra uma bundinha com algumas acnes aqui e acolá, era a única peça de roupa que usava... Assentou-se no outro extremo da sala jogando a perna direita sobre o braço da cadeira estilo chippendale, sendo agora possível entrever alguns pêlos púbicos; e, num repentino rasgo de fogo no véu da escuridão, foi possível ver o delicado e pálido rosto, com pesarosas olheiras adornando aqueles olhos de azeviche. Acendera um joint. Portava-se como uma personagem de Beckett prestes a fazer um monólogo enquanto uma luminária cujo foco voltado todo a sua face mostrava que seus olhos agora estavam opacos... Turvados. Matreira, puxou o arco do violoncelo com crina de cavalo que estava sobre minha escrivaninha e, com movimentos lúbricos, lentamente começou a perpassar sua ponta lascada entre as magras coxas até alcançar seu vestíbulo sagrado, que não tardara a expulsar seus humores. Uma pausa agonizante e um espasmo em todo lânguido corpo. Assim era Layla: naquele rostinho angelical onde parecia habitar o sagrado, coabitava o profano.

Reclinou a cabeça para trás e, logo em seguida, passou a assoprar anéis de fumaça, ao mesmo tempo em que roçava o dedão do pé na estante. E, neste momento, seus olhos revelavam que, sem dúvida, ecoava em sua mente uma voz bêbada a recitar um texto que tanto a fascinava:

“Primeiro, permita a penetração e sugue o sêmen da combustão, mas o mantenha na boca. É necessário enrijecer as bochechas, fazer bico, mas que não fique muito fechado! Faça de tua boca um ventre, gere nele os miasmas do mundo, depois os deixe provir à luz dando pequenos coices com a língua, seguindo uma cadência Andante ma non Tropo. É importante encontrar e manter a intensidade do movimento lingual para que o orgasmo seja pleno e o nascimento, perfeito”.

Layla para de pensar. Ouve o som da chuva no telhado. Bebe, dá mais um trago e continua relembrando o texto:

“São olhos oníricos de ciclopes que brotam de minha boca – Arrota – Vão, pouco a pouco, enfileirando-se, formando uma centopéia adornada de vísceras que, lenta e pegajosa, ruma para abóbada etérea até que se desmancha, e, em seguida, transforma-se em mundo, em vida, ou em fezes atmosféricas... Que causam erosões cutâneas com o tempo.”

“Tenho um haicai para você!” – Diz ela repuxando os olhos ao estilo oriental, rompendo o silêncio:
“pássaro indisposto
um mau presságio:
cocô cai no meu testa”


E gargalha! Gargalha até chorar, segurando a barriga.

“Engraçadinha!” - Respondi com um sorriso contido enquanto subitamente me lembrava do tempo... Que tempo? Perdido no tempo... Onde aquela garota branquinha, de cabelos escuros e curtinhos, nariz de ponta vermelha, com um cachecol Burberry já um tanto surrado cobrindo o intocável pescoçinho de marfim, tendo sobre os ombros um pesado sobretudo bege, sem dúvida comprado na liquidação anual da Harrod’s, tocava seu violoncelo todas manhãs na Totteham Court Road. Isso sem dizer daquele cheiro de banho Lush que inundava as narinas de todos à volta e me fazia ver tulipas desabrochando nas antenas dos carros. Por vários meses – não sei quantos – parava para vê-la tocar. Os óclinhos redondos encobrindo o cenho cerrado refletiam as complexas partituras tremulando feito as bandeiras da Mall em dia de desfile. Lembro também dos tênis All Star nos pezinhos ágeis batendo o compasso. Esse aspecto em especial, a denunciava: era esquerdista. Ah, disso eu não tinha dúvida! Não demorou nada para que confirmasse essa minha suspeita. Certo dia, enquanto ela tocava, percebi que em sua bolsa gigante e desengonçada havia uma porção de livros de autores marxistas. “Tudo bem. Seria pedir demais que ela fosse leitora de Hayek” – Pensei.

Diante da pequena nefelibata não conseguia esconder meu entusiasmo e excitação. Pensava que não havia nada mais sensual que uma mulher tocando violoncelo. Tinha a impressão que aquele timbre aveludado e grave era produzido em seu útero e emanado pelos grandes lábios, esbarrando no clitóris, causando pequenos frêmitos, enquanto o monte de Vênus se erguia... Ah, não era à toa que ela tocava com as pernas abertas! De lá saía de tudo: Stravinsky, Bach, Dvorak, até que um dia, para minha estupefação, ela deu à luz - vejam só! - um Pixinguinha “Carinhoso”... Mas tão carinhoso que eu até acreditei, por um instante, que o azul do céu tinha mesmo sabor de anis e que a London Eye nem era assim tão destoante naquela paisagem às margens do Tamisa. Em seguida, ela estendeu a mão levemente suada em minha direção, e disse com um sorriso que lhe conferia graciosas covinhas nas bochechas: “I’m Layla”. Depois daquele dia, passei a andar pela Oxford Street “looking for flying sources in the sky”.

Repentinamente, ela interrompe meus pensamentos e se joga em cima de mim, amarra meus braços em suas costas nuas como uma menina medrosa que busca segurança. Podia sentir os seios - sutis erupções de sua epiderme - recostados sobre meu peito. Seu rosto escondido, se enterrando em minha orelha, sua respiração quente e ofegante em meu pescoço. Um soluço. Sinto lágrimas escorrerem por meu ombro. “Que foi?” – Pergunto. Ela segue em silêncio. Observo sua nuca lívida, ávida por paz. Acaricio-a. Percebo que uma nesga de maquiagem foi vertida em meu travesseiro. Seus lábios, tais como pétalas glaciais e trêmulas, beijam meu rosto... Fiapo de vodka enroscando em meu lóbulo: “Tô grávida”.

E então, olhando para os veios do mogno da porta da sala, vi os pés do camponês arrastarem-se lentamente pelo plano e interminável campo de terra recém arada, onde as sementes adormecidas aguardavam a primeira chuva para acordar. A cada passada, um estalido do chinelo contra o pé cansado e sujo... E esse era o único som ouvido em quilômetros. O homem seguia alheio a tudo com o olhar perdido no horizonte que absorvia em si os últimos reflexos de um dia ensolarado. Tão só como ele, era o solitário castanheiro desgalhado a algumas dezenas de metros adiante, de onde a cotovia, por dentre os galhos, o espreitava atenciosa. Em algum lugar, impetrado naqueles vales infinitos e soturnos por onde a noite penetrava, devia haver alguma casinha com uma luz amarela na porta, com uma cerquinha tortuosa guardando dentro de si vaquinhas com seus bezerrinhos indefesos. E galinhas, e galos, sim. O brilho no olhar do pobre caminhante revelava tudo isso, e mais: um lar, o cheiro de roupas brancas quaradas ao sol das manhãs, o conforto de uma família desdentada que certamente o esperava de braços abertos para mais uma mirrada ceia. E, conforme o brilho mais aumentava em seus olhos, um certo ar de espanto se acrescia a eles. De repente, notou que seu caminho havia sido bloqueado por uma estranha parede metálica que se erguia impávida: uma maçaneta. Seu caminho se perdera, jamais alcançaria sua casa, estava fadado a andar por aquele cenário bucólico e vazio para sempre. Sua mente se perturbara.

Layla, exausta e dopada, havia, então, repentinamente adormecido, porém segura, com um sorriso de alívio nos lábios. E sonhava... Sonhava ser uma árvore no topo de uma montanha qualquer; solitária e indefesa, porém majestosa, abria os braços em meio ao silêncio e, como uma soprano em pianissimo, soltava seu agudo e aveludado canto; e o mundo, ainda em trevas, caía em pranto e desolação... As pedras murmuravam e lamentavam com suas boquinhas agonizantes. Arrostando a aragem matutina sentiu cada micro gotícula de orvalho suavemente pousar sobre sua pele, até que foram sorvidas por seus poros, enchendo-a de força, fazendo amalgamar-se a seiva dentro de si em uma nova vida.

Um longo e profundo suspiro.

Ainda sonhando, abriu os olhos e percebeu que tudo à sua volta borrara-se em lilás. O sol cravara suas lanças impiedosas no mundo e em suas retinas. E a terra, ensangüentada, manchava o céu em forma de aurora. As aves noturnas pipilavam sua dor recolhendo-se a seus desvãos... Pobres noctívagas criaturinhas. Enquanto as outras acordavam para um novo dia, emprestando-lhe a beleza de suas cores e de seu canto. E alguém a questionava repetidamente: “A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo?”

“Chega!” – Grita sobressaltando-se na cama.

A moça põe as mãos no rosto, sente tonturas e, sem ainda discernir realidade de sonho, olha para o relógio e tenta calcular quantas horas dormiu. Não dormiu muito. Ainda eram três da manhã.

Levanta-se enrolada nos lençóis, pois sentia muito frio, e, então percebe que não havia mais ninguém no apartamento, na verdade um studio. Grita pelo namorado: “Marcos?” Não obtém resposta. Dirige-se correndo ao armário a fim de certificar-se daquilo que pressentira, e percebe que, no lugar das roupas dele, apenas velhas seringas... Ela volta a gritar inúmeras vezes por seu nome, até que, cerrando os punhos e erguendo a cabeça para o teto, arrebenta de sua garganta um grito lancinante que faz acender a luz do apartamento do lado: “Está tudo bem, moça?” Ela, caída no chão, responde que sim, disfarçando o choro que a dominava. Em seguida, lança violentamente seu rosto contra a parede, e lá o esfrega, registrando naquele espaço uma estranha pintura feita com as marcas de seu sofrimento atroz, composta por gliter, outras maquiagens baratas, coriza e sangue. Desenha lá uma forma quadrangular, algo que remete a Rothko. Geme de dor, engasga-se, baba e uiva assim como o vento que batia na janela daquele último andar. Sentia uma mistura de desespero, náusea e repulsa por si e pelo o mundo que a rodeava. Depois de muito lamentar, acabou adormecendo novamente ali no chão mesmo.

O dia nasce pelas sujas janelas. “Dois graus em Westminster. Pancadas de chuva durante o dia todo” – Diz o rádio relógio, mais um objeto deixado por Marcos. Ela o atira na parede. Apesar do frio que assolava Londres naqueles dias, o frio que assolava sua alma era ainda maior.

Layla levanta-se com dificuldades, segurando o lençol envolto em seu corpo e dirigi-se ao banheiro; ao parar ante o espelho, com uma mistura de sarcasmo e melancolia, diz baixinho: “Hello, Stranger”. Fica por alguns instantes observando sua face. Realmente não se reconhece. Vê lá sangue e secreções ressecadas. Seu cabelo está sujo e fétido. Olha fixamente para os comprimidos no armário, mas não os pega. Não ousa.

Sem se dar conta, senta-se na banheira branca com pés de latão e, por alguns minutos, deixa a água escorrer por seu pescoço. Sentia-se exausta e dolorida, mas acariciada por aquela água morna; sua garganta arranhava. As junções dos azulejos se fundiam e se confundiam em suas vistas, e ela as esfregava impacientemente com a mão. Um pequeno regato se formava nos vãos de seus braços cruzados, tinha vontade de mergulhar nele, e lá, se esconder para sempre.

Olhou pela janela do banheiro e constatou, mais uma vez, a chuva incessante. E, apesar de tudo, tinha capacidade de enxergar algo de belo naquele fog cinza escuro que contrastava com o brilho baço das ruas de asfalto por onde faróis automotivos ziguezagueavam...

Já devidamente agasalhada, sentou-se na mesma cadeira que sentara no dia anterior. Ficou lá, no escuro, observando a vidraça que abrigava inúmeras gotículas de chuva apinhadas, enquanto algo de Chopin tocava no CD player, mas nada se passava por sua mente. Aos poucos, o cheiro de banho, o toque do tecido, começaram a lhe causar pequenos frêmitos, lhe davam uma aparentemente desmotivada sensação de "voltando para casa". Sua alma parecia estar em degelo.

Mais uma vez sem pensar, quase que instintivamente, preparou-se um copo de leite quente e o tomou molhando cookies nele, feito criança. Degustando lentamente aquele pequeno prazer, lembrou-se de quantas vezes, durante a infância, após as árduas tarefas da escola que lhe deixavam tão exausta, sua mãe, em Camberra, lhe dava cookies para molhar no leite quente... Como aquilo a confortava! Fechando os olhos, sentia ressoar por todo seu crânio o compassado triturar deles. Tal som era como se a terra estivesse abrindo-se toda em fendas e delas brotassem rios de chocolate por onde, em gôndolas de morango, navegavam elfos a tocar suas flautas. Cada uma de suas papilas gustativas era invadida pela intensidade daquele sabor terno e maternal. Logo, toda sua boca pareceu encher-se de glória e paz de modo que, naquele momento, pensava ser capaz de proferir discursos que aplacasse todo ódio, toda vaidade e toda cegueira da humanidade. Mais uma vez, fechou os olhos e suspirou profundamente... Limpou os resquícios de chocolate em seus lábios e tornou a lembrar do estranho sonho que tivera durante a noite. Nada lhe parecia muito coerente, mas aquelas imagens persistiam em sua mente. Uma sensação de abandono, medo e insegurança tentavam fazer parte de suas emoções, ao que ela bravamente resistia. Policiava-se para não pensar no que sucedera naquela madrugada. E continuou lá por horas, quietinha, abraçando os joelhos e ouvindo Chopin.

Onze meses após...

Não entendi o motivo que me fez despertar tão calado aquela manhã. Não tardei a perceber que não somente eu estava assim, mas tudo em redor. As crianças, debruçadas na pia, escovavam os dentes em silêncio e entreolhavam-se desconfiadas. Não posso dizer que me sentia triste ou preocupado, apenas sentia-me estranhamente anestesiado.

Enquanto me vestia, reparava pela janela que o clima estava denso de modo que a mim parecia que o mundo estava em slow motion – Um nó windsor na gravata azul devidamente discreta – abaixo, poucas pessoas transitavam na Beaver. Um mendigo carregava no pescoço uma placa que dizia: “O fim está chegando”. “Nuts” - Pensei. Era um desses típicos personagens da big apple. A estátua da liberdade, ao contrário de todas outras manhãs, mais parecia uma velha cataplasma se rastejando pela baía de Hudson.

Tereza, a babá, entra sem dizer bom-dia e penso que ela está nervosa com o marido. Sabe como são estes imigrantes, né? Ouço somente o barulho da porta – uma colherada no cereal com leite integral – “Pelo menos um bom-dia...”

Ao sair na soleira percebi que o jornal do dia não estava lá. “Tereza, você pegou o jornal?” Ela não responde. Acho que fala pouco inglês. Procurei em cada uma das portas dos apartamentos vizinhos, talvez o entregador tivesse se enganado, mas não. Tudo estava quieto e extremamente limpo no hall e os elevadores estavam milagrosamente parados em meu andar. A impressão que me restava era a de que todos estavam de férias.

Descia pelo elevador e, pela primeira vez em tantos anos vivendo naquele velho edifício, parei para observar as paredes revestidas em cerejeira. A viagem de descida era longa, afinal vivia no vigésimo andar, o último. O cheiro de lustra móveis, por algum motivo, me deixava ansioso. Lembro-me que, quando criança, mamãe me levava ao médico. Ele, com aquela barba branca e com aqueles olhos de pálpebras empapuçadas que, de tão pesadas, deixava a mostra o vermelho vivo de seu reverso colado às suas retinas – Dá uma mordida numa banana que carregava consigo - confesso que temia... E esse elevador tem o mesmo cheiro daquele do prédio do consultório. É isso.

O elevador parou no oitavo andar. Uma moça negra com um cabelo estilo black power, exageradamente perfumada com uma essência adocicada e indevida para o horário, entrou cabisbaixa. “Ninguém mais nesse mundo diz bom-dia?” – Pensei.

Um tanto desconsertado, como sempre fico em elevadores com pessoas desconhecidas, fixei meu olhar naquele painel de latão polido onde ficavam os dígitos já um tanto desgastados. Lá podia ver refletida uma metade de meu rosto e uma metade do rosto da moça. Ambas faces recobertas por uma leve camada de poeira. Tão iguais diante do reflexo que me parecia que uma era continuação da outra, entretanto, a face híbrida não era exatamente bela. No meio do emaranhado de cabelos dela, podia ver veredas empoeiradas incrustadas no coração da África em dias de calor escaldante por onde transitavam imponentes munsis, com seus corpos de ébano, montados em elefantes e zebras. Era tanto céu, tanta terra dentro do painel do elevador.

“Chegou, senhor Robert” – Disse o porteiro delicadamente abrindo a porta de ferro.

Segui meu caminho como todos os dias. No metrô fui lendo um relatório administrativo quando senti um geladinho na minha mão. Era uma menininha que me cutucara com o dedo indicador. Ela sorria para mim descaradamente. Olhei para os lados e senti-me desconfortável. É impressionante como crianças me envergonham. Acho que nunca tive muito jeito mesmo para ser pai, mas acabei sendo. Entretanto, não seria capaz de lembrar como tudo isso aconteceu... Digo, como me casei, me divorciei, tive filhos, me formei. Parece que tudo isso foi tão natural, tão mecânico. Não consigo me lembrar de nada que possa dizer “nossa, aquilo sim foi significativo para mim”. Sim –amo meus filhos, amo talvez porque tenha que amar, porque é certo que seja assim. Sempre fiz o que era certo fazer. Mas, mal sabia eu que, naquela manhã, tudo estava prestes a mudar.

Ao subir pelas escadas rolantes, comecei a ouvir um som profundo e hipnótico no meio do ruído incessante da estação, do guinchar dos trens. Com o relatório debaixo do braço, mais uma vez sem saber porquê, segui a direção daquele som, afoito, como é bem comum andar nestes lugares mesmo que não se esteja com pressa. O som era grave. “Um violoncelo? Sim – era um violoncelo!” Tocava algo minimalista, arpejava uns acordes, algo escandalosamente simples, mas imbuído de um lirismo que nunca vi igual, uma dramaticidade profunda. “Philip Glass?”

E então lá foi Robert se aproximando e, às voltas de onde emanava aquele som, havia uma pequena multidão em estado de contemplação. Movido por uma grande curiosidade, foi se infiltrando entre as pessoas, que pareciam imóveis; até que, finalmente, pôde ver o que tanto as atraía, pôde ouvir claramente aquele som que tanto havia lhe calado. Uma cena tocante, de uma beleza frugal, quase religiosa: uma moça com uma saia longa abrigando entre os joelhos as costelas do robusto violoncelo de uma coloração quase negra, imponente. Seu arco, com a ponta lascada, deliciosamente planava sobre as cordas, acariciando-as; os dedos, firmes como os de uma rainha impiedosa, cravados no braço do instrumento, faziam as cordas tremerem de medo e a alma de madeira clamar com voz lamuriosa; os cabelos, multicoloridos com um corte alternativo, se enroscavam, vez ou outra, na voluta, nas cravelhas e até mesmo na pestana dependendo da expressão que seu maestro imaginário conduzia. A seu lado, um bebê tendo como berço o estojo do violoncelo. Encapotada, a menininha parecia alegre e talvez um pouco assustada. Emitia grunhidos e esticava as perninhas. Robert, desfigurado, sentia a própria pulsação como que seguindo o mesmo ritmo repetitivo e intenso.

Com cerca de trinta e quatro anos, Robert se dava conta, pouco-a-pouco, enquanto ouvia aquela música e via aquela cena, que havia renunciado a vida desde que nascera. Sua trajetória, até aquele momento, tinha sido apenas esperar, esperar, esperar que algo realmente excitante acontecesse. Aquela música parecia querer dizer-lhe alguma coisa, lhe incomodava, como nunca antes uma música fizera, nem mesmo as de Bruce Springesteen que serviram de trilha sonora para sua juventude.

Percebe, então, que o tédio, o vazio, a letargia, que sentira quando acordara naquela manhã eram sintomas de sua existência, sintomas tais que jamais eram sentidos enquanto se dedicava ao árduo e constante trabalho. Fora das obrigações, Robert não passava de um monte de músculos e ossos perambulando por aí.

Depositou dois dólares ao lado do bebê que, como se fosse por gratidão, sorriu lindamente pare ele arregalando dois olhos azuis de um brilho intenso, como o azul da eletricidade. Atordoado, ele foi saindo lentamente, caminhando para trás e com os olhos fixos na menininha... Que sorria cada vez mais. Sentia um nó na garganta, seus olhos estavam marejados e suas mãos suavam.

Subindo pelas escadarias, já vislumbrando a cidade e seus arranha-céus. O vento estapeava o rosto daquele burocrata de cabelo loiro e encaracolado. Parou. Olhou para o relógio, e, com um semblante assertivo, pensou: “dane-se a reunião!” Desceu rapidamente as escadas do metrô e foi direto ao lugar onde estava a violoncelista, mas não mais a encontrou, para sua decepção. Perguntava para os guardas e passageiros que por ele passavam, mas ninguém sabia lhe responder. Afrouxou a gravata e começou a correr desesperadamente pelos corredores, esbatendo em quem viesse pela frente. Sabia apenas que corria. Viu uma moça de costas, falando ao telefone público. Parecia ser ela. Robert atirou-se em sua direção, a moça virou-se assustada: “Não te conheço!”. “God damm it!”

Tudo ficou em silêncio. Ao longe, Robert viu a violoncelista com o bebê no colo, carregando o estojo do instrumento no ombro e entrando no metrô. A porta se fecha. Ele, com o rosto vermelho e suado, berra: “Moça!” Layla olha tranqüilamente em sua direção, mas não o vê. Está completamente absorta em seus pensamentos.

O trem segue infiltrando-se no túnel, mas seu som parece ainda marcar a melodia de Layla, que ficara fincada no cérebro de Robert, que agora, de cócoras, lamenta copiosamente na plataforma. Nisso, uma garota achega-se a seu lado, o encara com um olhar assustado e, sem cerimônias, vomita violentamente. Seu vômito sem cor e de espessura grossa parece ser infindável, como um rio caudaloso e fétido que arrebenta seus diques. Ele olha para tal cena inconformado, meneando a cabeça.

Mais um silêncio aterrador... E o chão vibra. Um som surdo vem da superfície. Não demora muito até que uma densa massa escura invade as escadarias, deixando a plataforma da estação um verdadeiro caos, onde não se enxergava um palmo adiante. Um policial grita, com uma lanterna na mão, avisando para que todos o sigam, pois o local deve ser evacuado imediatamente.

“Meus filhos. O elevador. O mendigo. O vômito. Tereza, bom-dia. O violoncelo... A violoncelista!”

Do celular, tenta ligar para casa.
O telefone tocou uma vez.
O telefone tocou pela segunda vez.
O telefone tocou pela terceira vez.
“Holla, diga señor Robert!”– Diz Tereza.

O sinal caiu.

Duas horas depois, correndo pela Wall Street, topa de frente com o mendigo: os dois caem no chão e a placa dele sai rodopiando pelo asfalto até que uma viatura da NYPD passa por cima dela, estraçalhando-a. Com o tombo, ralou o ombro e rasgou a camisa. O sangue escorria por seu braço que, como o restante de seu corpo, agora estava recoberto de uma espessa camada de poeira. Ao entrar no edifício, o porteiro parecia petrificado. Robert faz um sinal de afirmação com a cabeça para ele. No hall, o elevador não estava parado. Resolveu subir pelas escadas. Parou no oitavo andar, não suportou o cansaço. Lá, ele vê a moça negra, sentada no chão, em posição fetal, dominada pelo desespero. Consegue pegar o elevador e, durante o trajeto, cai no chão do mesmo, escorregando pelas paredes, deixando lá sua marca de desespero e cansaço, composta por suor, poeira e sangue. Os músculos de seu rosto estavam todos enrijecidos, contorcidos. Veias saltavam de sua testa, por onde escorria o suor. Irreconhecível. Até que, finalmente... A porta do elevador se abre e, novamente, ele tem a sensação que o mundo está em slow motion. Seus dois filhos vêm em sua direção correndo. Ele se ajoelha, desliza pelo mármore indo de encontro às crianças, e, em prantos, as abraça como nunca antes fizera; em seguida, vem Tereza e faz o mesmo. A luz automática do hall se apaga e apenas um clarão vindo de sua porta entreaberta ilumina aquelas quatro pessoas abraçadas a chorar pelo simples motivo de estarem vivas. Pelo vão da porta, era também possível ouvir o noticiário mostrando repetidamente as imagens da tragédia ocorrida horas antes...

Robert havia, finalmente, renascido...

Naquele mesmo dia, ele teria uma reunião às nove e dez, no Jp Morgan, numa das torres gêmeas.

Algumas semanas após, bombeiros testemunharam que, em completa escuridão, ao vasculharem o shopping center que ficava entre as torres um e dois do World Trade Center, encontraram, próximo do elevador de cargas, um feixe de luz vindo da superfície incidindo sobre os escombros, e os penetrando; abaixo deles, encontraram o corpo de uma moça atado ao de um bebê com poucos meses de vida e também a um violoncelo espedaçado...

Era como uma árvore esticada sobre o chão segurando ferrenhamente seu fruto e sua paixão.


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Otávio Augusto Martinez
Verão de 2008
Atibaia
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Saturday, October 13, 2007

Voyeur
Manhã

Pressionando as pálpebras firmemente, mergulho a face no desconhecido. Do Caos, vejo a criação. Vejo o Edem. Vejo o barro. Vejo o pecado. Vejo o sangue... Aspiro o som nasalado do vento, como que emitido por grandes tubos de um órgão solene. É o hálito de Deus que recende a chuva, a terra molhada e ao sal dos oceanos. Suspenso no universo, com um meio sorriso nos lábios, sinto as cócegas das estrelas, coço as costas de Plutão e bebo o leite da via Láctea. E da escuridão profunda me vem a imagem de uma cidadela: uma pequena colcha de retalhos com costuras tremeluzentes. Cheio de falhas e faíscas é o centro dela visto daqui. Abaixo de uma lua em forma de arco de unha cortada a gotejar argenta luz em meio a turbulentas nuvens, como rolos negros de fumo de alcatrão, circunscritos, contudo, com filigranas de prata, vi as abóbadas das árvores apresentando-se atapetadas de orvalho... Os telhados imperfeitos abrigando as gentes - vi até os olhos azuis da pequena Allegra. Lá estava ela, friorenta com os braçinhos cruzados contra sua bonequinha de pano ao lado da janelinha verde, vestindo um peignoir vinho enfeitado com miçangas cor-de-rosa; suas bochechas róseas a cintilar suas lágrimas de pavor, enquanto seus irmãos, à luz das trêmulas velas, exibiam suas serenas carinhas imergindo da brancura perfumada dos lençóis, dormindo placidamente e tendo suas mãozinhas entrecruzadas sobre seus peitos como quem aguarda pacientemente a chegada da aurora que, lentamente vinha tomando de assalto as ruas, as cidades, o continente, revelando os segredos, desnudando os crimes cometidos na calada da noite, estapeando o rosto da humanidade e revelando a previsibilidade de seus atos.

À medida que Apolônio singrava pelas vielas, tossindo e pigarreando; enquanto dirimia a chama fosca dos lampiões envoltos na azulada e aveludada névoa matutina, esta se dissipava, e assim se tornava possível ver seus pés descalços. Um deles, visivelmente bichado, tendo espessas escamas, como cascas de mogno, cobrindo seus poros e, abaixo dele, abaixo das rodas do tílburi, dos prédios públicos, da igreja da matriz, das ruas de barro, dos cascos dos cavalos que indolentes puxam seus plaustros à luz do dia, dormia a terra que, erguendo seus joelhos e ombros em seu interminável sono, sonhava ser céu.

Na ponta da Travessa Sem Saída que, naquela época, ainda dava costas para um regato mal cheiroso, Apolônio constatou que, naquele momento... Não havia nada de muito importante para se pensar, pois é bem verdade que há uma época na vida que os homens, mais do que nunca, se sentem meros autômatos, vãos pensadores, massas vazias perambulando num espaço infinito, indefinido; é nessa época que também cai sobre eles o peso da inércia, a culpa por nada de significativo fazer pela humanidade, como, sei lá, cravar o punhal em Marat. Acender e apagar as luzes todos os dias. Pensar nas pequenas-grandes questões, não mais. Galgar a terra a cada dia se enraizando como micro pústulas (ou seriam sanguessugas?) no enrugado e milenar úbere azul.

Apolônio simplesmente seguiu seu caminho navegando no céu de nuvens refletido nas poças d’água, e então os tordos trucilaram quase que no mesmo instante que Dna. Hulda abriu uma frestinha da porta fazendo soar os guizos. Sim, era natal. Para ela, particularmente, tratava-se de uma época de tristes lembranças... A guerra dos Habsburgos e de todas aquelas pomposas famílias da Europa, os estrondos do canhoneiro, as suas conseqüentes vitimas - que agora jazem em paz nos confortáveis papeis repletos de arabescos das paredes amareladas das salas - e todas essas coisas que essa gente velha carrega com tremenda e insistente veladura e que todas as manhãs, quando acordam assombrados e palpitantes, passam a impressão que não acabaram, que ainda estão vivas. A sensação de que brevemente estaria ela ocupando um espaço da parede de alguém não a assustava, pois sabia que ninguém a considerava a tal ponto. Nunca dirigia uma palavra a uma vizinha, se fazia indiferente ao choro dos bebês do bairro, mas, mesmo assim, não expressava altivez ou petulância. Era apenas irrelevante. Ficava estranhamente feliz ao imaginar que, diferentemente de todos, não serviria de tralha histórica até que seu nome virasse fuligem ao dobrar dos séculos, que não daria lágrimas a ninguém, bastava as que derramava todas as manhãs... Para ela, as manhãs eram destinadas aos cultos sagrados aos mortos, pois emaranhados ao marulhar monótono das águas do regato, escoavam pelos átrios de sua memória, o som do amor, o gosto da tristeza e o cheiro do pranto de outrora... E ela nem percebeu quando a matriz badalou as onze e o feijão queimou. Findou sua diligência apenas ao ouvir o sineiro da bicicleta do carteiro tinir, e afoitamente foi ter com ele a fim de saber se havia algo para ela, talvez uma posta-restante do front... Mas nada. Não havia nada. Decepcionada, no meio da rua, ergueu os braços para o céu e os suspendeu violentamente em seguida; permaneceu curvada até que, com os olhos cansados, para sua surpresa, avistou um homem na porta da casa abandonada. Estava sentado nos degraus maquilados com a pátina do tempo que já vira tantas chuvas de verão e umidades de invernos que lhe deixaram como herança os tons variegados de musgo e negro. O homem era uma visão incomum para aquela rua quase despovoada, mais incomum ainda era seu aspecto: mãos longas e manchadas pendidas sobre os magros joelhos, rosto comprido, escalavrado, tingido em cores difusas, vestido em linho bege, chapéu, cigarro de palha na boca aceso a todo vapor como a fornalha de um transatlântico. Não se movia; a luminosidade que vinha de dentro da casa hora dava-lhe uma face jovial, hora envelhecida; não se sabia se era pobre ou rico, não se sabia nem para onde tinha seu olhar voltado visto que usava óculos escuros. “Quem seria esse homem?”, pensou Dna. Hulda, envergonhada e temerosa, hesitando em acenar, atitude tal que não ornaria com seu recato. Não o fez. Já voltando lentamente seus olhos para a casa de Dna. Veridiana, que ficava à direita da casa abandonada, de relance, viu, através da janela de vidros globulosos, que em sua cozinha o calendário indicava a data de Onze de Dezembro de Mil Novecentos e Dezenove, data que não fazia a mínima diferença para ela, mas era de suma importância para Celso, filho de Dna. Veridiana que, na ocasião, ganharia um violoncelo do pai em celebração ao seu sexto aniversário!


Tarde

“É uma pena que Allegra, com seus óculos de aros de tartaruga, já não esteja mais entre nós para nos contar aquelas pitorescas estórias sobre paragens longínquas, castelos romanescos e heróis destemidos”, dizia Prof. Otto em pensamento segurando alguns livros que haviam acabado de chegar da capital, ao mesmo tempo em que sorvia o restante de um café já frio, servido em uma xícara de bordas carcomidas e com gravuras chinesas, lá no bar do Seu Hector; a xícara era de estranha graciosidade: nela era possível observar cules vestidos em azul em meio a infinitos arrozais que ondulavam ao impulso da aragem como um denso e irrequieto oceano verdolengo. Mais ao fundo, das entranhas das montanhas de cumes decepados pelos cúmulos nimbos tão baixos como se apresentavam naquela hora quiçá matinal, vinha um nobre manchu vestido em preto, pousando tal como espectro faustoso e temido, flutuando sobre as águas caudalosas; e, conforme os mares se abriam, entrevia-se um lacaio escanifrado e suado galgando com seus pés descalços a terra molhada e viçosa da estradinha que serpenteava aquela planície: carregava o nobre circunspeto em um jinriquixá. Havia uma pequena vida acontecendo ali, e ninguém se dava conta... Mas o café era caro, suas ações despencavam em Wall Street. E isso preocupava!

É verdade. Como fazia falta a graciosa Allegra com seu rostinho sardento! Sua voz, tão suave, se entrelaçava à brisa vespertina, eriçava as cortinas, perdia-se nos cachos de Virginia e depois ia ecoar lá nos fundões do mundo, ou do outro lado da rua... Tanto faz, tocando a nuca de Celsinho que teimava no violoncelo: “do, re, mi... Não, é mi bemol!” E, mesmo assim, ainda o menino de face alaranjada sorria faceiro. O que suecos faziam nesse lugar tão sem propósito? Não sei, mas Dna. Alice dizia que eles fugiam do frio. Professor Otto, ex-integralista, costumava dizer que muitas pessoas eram alérgicas a democracia, como ele mesmo, por exemplo.

“Pietro, menino traquinas, sempre com aqueles olhos proeminentes de um azul cobalto atentava mais para as pálidas mãos de Allegra onde pousava aquele velho volume. Tão bruto na aparência, tão suave na essência. Era assim: continente e conteúdo. A boca da triste moça parecia ter parado no tempo. Restava-me a impressão de que, a qualquer hora do dia ou da noite, lá estaria ela em sua cadeira Windsor (que o pai trouxe da Inglaterra de navio!) pronta para contar a próxima aventura ou romance. Na maioria das vezes, ela esboçava palavras que não alcançavam meu rude conhecimento de criança, mas que, por algo que sabe se lá como os homens devem chamar, me causava fascínio. Pena que se fora tão cedo. Era tudo como um sutil adágio apenas perceptível aos anjos. Tudo tão deliciosamente naïf, como toda infância o é. Talvez seja por isso que ainda gosto tanto daqueles pré rafaelitas que hoje podem ser encontrados nos calendários da farmácia ou daqui do bar”, dizia professor Otto para si mesmo enquanto limpava os resquícios de açúcar de confeiteiro que ficara nos cantos dos lábios e embaixo do bigodinho extremamente fino e uniforme.

As imagens da infância já iam naturalmente se apagando como se estivessem derretendo ante o sol ardente daquela tarde primaveril, um sol que se derramava todo sobre a Travessa Sem Saída. De repente, um gato dourado e peludo por ali passava, rolando envolto na poeira como fragmento desprendido do Astro-rei. Preguiçosamente esticou-se, arqueou a corcova, roçou-se nas azaléias e, com os olhos semicerrados, deitou-se na soleira da casa onde vivera Dna. Hulda, agora habitada por Dna. Maria Amália, a artista plástica; o gato tinha como plano de fundo um São José de azulejos pintado em azul com um pincel grotesco, mas que ainda sim preservava um certo olhar piedoso e egrégio que parecia derramar certo sentimento de proteção e, por que não?, candura. O bichinho adormeceu sobre seu próprio pelo macio e cálido; parecia estar inebriado no intenso (e quase insuportável) olor exalado pelas goiabeiras que, para mim, via de regra, prenuncia uma desgraça.

O professor pagou e seguiu caminhando pela rua com seu andar canhestro, típico desses homens que se entregaram aos livros ao invés de se entregarem à vida. Tinha os pés abarrotados de passado, as mãos trêmulas de presente e os olhos cegos de futuro, foi quando ele viu, pela primeira vez, sentado nos degraus da entrada da casa abandonada, a estranha figura do homem desconhecido. “Quem seria esse homem?”. O homem estava parado, vestia as mesmas roupas, tinha a mesma cara vista por Dna. Hulda; olhava para o infinito através de seus óculos escuros. E naquelas lentes redondas se refletiam o horizonte e tudo que por ele passava. Tal silêncio e gravidade pressupunham temor, inevitavelmente. O professor, sempre interessado em um papo com os moradores do bairro, foi, a passos temerosos, se aproximando do homem – dizem as más línguas que Otto, inclusive, tencionava candidatar-se à vereança e, por esse mesmo motivo, sempre se apresentava tão simpático e falante, chegando a beirar, por vezes, o ridículo. Porém, quando Seu Hector gritou: “Doutor, o senhor está esquecendo esse aqui”, o professor voltou-se bruscamente para o estabelecimento. – Um fusca amarelo passou em alta velocidade, levantando uma imensa nuvem de pó. Dentro dele, quatro negros com olhos ressabiados de azeviche – “Comunas de merda. Pensam que vão salvar o mundo”, pensou Otto. “O que foi, Hector?”. “O livro, doutor. Tá esquecendo!”. Otto dirigiu-se até o bar maldizendo sabe-se lá o que ao mesmo tempo em que uma cambada de gralhas se apinhava na beira do regato em tremenda algazarra, por vezes chegavam até a trocar bicadas entre si. E, ao observar as mãos ensebadas do pobre homem que marcavam a capa verde e lustrosa, não conseguiu esconder a cara de nojo. Ao pegar o grosso volume com as pontas dos dedos da mão esquerda, inevitavelmente deixou-o cair no chão de azulejos hidráulicos retratando flores de lis... E o livro ficou lá, estatelado, bem na página onde constava o seguinte verso:

“To see the world in grain of sand
and Heaven in a wild flower.
Just hold infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.” *

O recibo de entrega foi flanando lentamente sobre o solo até que uma rajada de vento o soprou aos céus, passou pela careca de Hector, titilou os dedos pequenos de Professor Otto, ameaçou pousar no chapéu de palha em formato de balde de carvão de Virginia... Mas não! Foi lentamente rendendo-se ao solo... Até beija-lo com delicadeza, indicando orgulhosamente, com uma letra quase ilegível: “encomenda entregue em Vinte e Um de Setembro de Mil Novecentos e Sessenta e Oito”.


Noite

Se tal cena fosse pintada por Dna. Maria Amália, precisamente na época em que ela ainda não havia se rendido ao já ultrapassado cubismo, os incultos certamente diriam que se tratava de um retrato de alguma viela da Úmbria, da Toscana ou até mesmo da Calábria, visto que a fumacinha com aroma de camomila que saía da janela da enferma Dna. Virginia, agora viúva de Prof. Otto, poderia ser, sim, tranqüilamente confundida com o negro-fumo do inquieto Etna. A água-forte faria correr rios de tinta para os críticos de plantão. Uma versão feminina e contemporânea de El Greco poderia ter despontado em plenos anos quarenta! Se bem que devemos considerar os embates que teria com a elite cultural oriunda de Vinte e Dois e suas pequenas fatwas que, diga-se, permanecem até hoje. Aquelas cores intensas, algumas até metálicas, o pincel grosso, a rusticidade do traço... Imagem mística, levemente borrada, tortuosa, porém fria, que até mesmo ao retratar a paz e o recato de um anoitecer como esse, no meio do nada, não deixaria de ser tenebrosa, dolorida, soturna. Acreditem, não haveria exagero de artista. Aquela rua que, naquela noite, mais se parecia com um rio por onde escorria o luar, realmente parecia ter formas imprecisas. Não se sabia bem ao certo onde acabava o pavimento de paralelepípedos e onde começava a perna do cachorro pulguento que nadava pela calçada encoberta de neblina e fumaça. Não se sabia o que era nuvem ou fumaça de jantar, nem onde, de fato, estava a lua. Fragmentada em mil gotas de formas estelares?

Imagino como seria retratada a delicadeza dos dedos de Dna. Virginia, abrindo lentamente a cortina de renda branca. Na outra mão, o missal, claro. Pobre mulher, parecia tão assustada ao ouvir o crujar de um mocho-diabo: “uûh... uûh... uûh”. Pietro não ouviu. Deitou-se sob os alvos lençóis, apagou as luzes e, fugazmente se lembrou dos lampiões que ficavam acesos durante a noite quando era criança. Em seguida, lembrou-se do irmão, Otto, que dormia a seu lado, e que agora dormia na sala... Num retrato da parede... Branca, como recomenda o bomgostismo minimalista, ou a simples falta de ânimo ou dinheiro. As lembranças logo lhe trouxeram sono. Entrecruzou as mãos sobre o peito não mais como quem espera pacientemente pela aurora, mas, sim, impacientemente pela derradeira e eterna noite. Seu último pensamento, antes do enfarto, foi: “Allegra, se fosse viva, ficaria muito triste ao saber que Celso, seu amor, está sucumbindo. Tanto sonhava com ele. Recortava todas as fotos das revistas porque algo nelas sempre a fazia lembrar dele. Ia ao cinema, duas, três, vezes para assistir o mesmo filme só porque o galã tinha algum traço que remetia o semblante sereno, tímido e robusto do violoncelista”.

“Dizem que o pintor pinta suas emoções numa tela e o compositor, no silêncio. Não há nada mais doloroso que uma sala totalmente branca, acética... Não há, na face da Terra, nada mais doloroso que esse silêncio. Falta minha cabrocha: meu violoncelo. Um mundo sem cores e sons não é mundo, é castigo”, pensava Celso, imóvel, com os olhos vidrados, segurando uma página de jornal amassada, cuja principal manchete era: “Famoso violoncelista e compositor abandona carreira após colapso nervoso”, mais abaixo, lia-se o comentário de um violoncelista russo: “Celso era um notório virtuose, destacou-se por ser um dos mais inovadores compositores de nossa era, além de ótimo interprete. É muito triste saber que agora vive seus dias sem poder andar, falar e ouvir”. “Hora de dormir, Seu Celso”, disse a enfermeira retirando calmamente o jornal da mão do pobre enfermo, quando algo no cabeçalho da página chamou sua atenção. Um sorriso maroto nos lábios: “O senhor sabe que dia é hoje?”.

Celso fechou os olhos e ouviu, após tanto tempo de angustiosa abstinência sonora, a redentora suíte N° 1 em sol maior para Violoncelo, de Bach. Foi crescen... Crescen... Crescendo! O som provinha não de um cello... Mas da boca de Allegra... Esplendorosa! Fulgurante! E ele berrou com todas as forças da alma no mesmo momento que se descortinaram os céus com todas suas rochosas nuvens... Pedras d’ouro! As doze portas com milhares de pedras preciosas incrustadas foram, finalmente, abertas. E aquela suíte então tomou o timbre de mil anjos com suas trombetas douradas! Alaúdes! Flautins! Tímpanos! Virginais! Violas da gamba! E harpas com cordas de tripas de cordeiros! Eia!

Mas ninguém, além de Celso, ouviu.

Logo vieram os agentes funerários que, de pronto, desfizeram o sorriso estampado em seu rosto, bem como limparam o trono glorioso de urina que a excitação lhe concedera.

O vento soprou forte. Uma. Duas. Três vezes. Desta altura, a rua tinha agora um aspecto monástico. Ao invés de árvores atapetadas de orvalho: árvores de cimento prenhes de luz. Eram como São Franciscos, com seus halos, que se curvavam ao pé da rua em deferência à procissão de silêncio que por ali passava... E o homem desconhecido a encarava. Estava igualzinho, no mesmo lugar; talvez nem seja preciso dizer, mas ainda mantinha o cigarro de palha aceso na boca. Não me parecia humano. Parecia-me mais um salgueiro desgalhado postado na soleira da casa abandonada, que não tinha outra função senão impedir a entrada de gatunos ou de quem quer que seja que a tanto intentasse. Nada além disso.

Ele, com os olhos grudados naquelas lentes, parecia se dividir ou se defender do mundo; ficava lá, guarnição rente à fronteira da realidade. Impenetrável... Anos a fio, tantas imagens, pessoas, fatos e cores passaram ante seus olhos... Ah, puxa! Mas, sinto dizer, nada disso lhe fez alguma diferença, afinal, meus caros, o homem desconhecido, era, antes de tudo... Um homem cego.

Perguntam-me, e eu digo: tenho formas helicoidais a maior parte do tempo; dentre minhas curvas passa a vida. Mas naquela noite invernal tomei uma forma reta, imperfeita, cansada demais. Fui me esvaindo, desgarrando os frágeis pés da terra; esta, agora, adormecida sob o manto gélido de, vejam só, asfalto! Já há cerca de trezentos metros do chão, percebi que a colcha de retalhos com costuras tremeluzentes nem era mais tão uniforme como outrora, havia pequenos e grandes calombos nela. Chamam-se edifícios... Claro que ficam há uma certa distância da Travessa Sem Saída.

Fechei os olhos e ouvi o badalar grave da matriz acima das nuvens. Era chegado o dia. Presenteei a lua com uma nova metáfora: feito copa de boda era ela que, pouco a pouco, perdia seu significado de lumiar, pois era inundada por sangue negro; e a Terra, agora, parecia em chamas. Vi os sete cavalos de vento, um de cada cor, rumando para baixo a violento trotar. E anjos a ralhar uns com os outros se desprendiam das barbas negras do universo, lançavam-se perfurando o som, as almas e o fedor dos ministros; ah, azougues de bocas abertas e dentes de prata, sedentos de mar... Famintos de homens!

O cigarro de palha, então, apagou.

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Otávio Augusto Martinez
Atibaia; São Paulo
Primavera de 2007
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* Heaven in a Wild Flower, poema de Willian Blake.
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Agradeço a Rubens Marin Martinez pelo suporte e revisão
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Paulistano apaixonado pelo seu caos, formado em Relações Internacionais e músico por excelência. É apenas mais um que tenta compreender suas emoções através da literatura e da música, não sabendo bem ao certo onde acaba uma e começa a outra.
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