<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607</id><updated>2012-03-16T17:34:44.342-07:00</updated><title type='text'>O Contista Crônico</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>21</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-6571084827082166656</id><published>2010-05-24T12:37:00.000-07:00</published><updated>2010-05-24T12:37:55.131-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>POEMAS SINFÔNICOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amigos que acompanham este blog,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo não publico aqui e, recentemente, iniciei um novo blog com meus novos contos que pretendo, em breve, colocá-los em livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me acompanhem no novo blog:&amp;nbsp;&lt;a href="http://poemassinfonicos.blogspot.com/"&gt;http://poemassinfonicos.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "Contista Crônico" acaba aqui. O blog ficará mais algum tempo no ar, mas logo não existirá mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço a todos e nos vemos no Poemas Sinfônicos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-6571084827082166656?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/6571084827082166656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=6571084827082166656&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/6571084827082166656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/6571084827082166656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2010/05/poemas-sinfonicos-amigos-que-acompanham.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-9201754103306131019</id><published>2008-01-24T14:19:00.000-08:00</published><updated>2008-01-24T17:53:14.090-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;A Violoncelista&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Limpando os lábios e lambendo os dedos, sorria ladina. Carregava uma garrafa de &lt;em&gt;Stolichnaya&lt;/em&gt; na mão, cantarolando e retorcendo preguiçosamente o esquálido quadril. A calcinha, meio enrolada, estampada com cachorrinhos que deixava a mostra uma bundinha com algumas acnes aqui e acolá, era a única peça de roupa que usava... Assentou-se no outro extremo da sala jogando a perna direita sobre o braço da cadeira estilo &lt;em&gt;chippendale&lt;/em&gt;, sendo agora possível entrever alguns pêlos púbicos; e, num repentino rasgo de fogo no véu da escuridão, foi possível ver o delicado e pálido rosto, com pesarosas olheiras adornando aqueles olhos de azeviche. Acendera um &lt;em&gt;joint&lt;/em&gt;. Portava-se como uma personagem de Beckett prestes a fazer um monólogo enquanto uma luminária cujo foco voltado todo a sua face mostrava que seus olhos agora estavam opacos... Turvados. Matreira, puxou o arco do violoncelo com crina de cavalo que estava sobre minha escrivaninha e, com movimentos lúbricos, lentamente começou a perpassar sua ponta lascada entre as magras coxas até alcançar seu vestíbulo sagrado, que não tardara a expulsar seus humores. Uma pausa agonizante e um espasmo em todo lânguido corpo. Assim era Layla: naquele rostinho angelical onde parecia habitar o sagrado, coabitava o profano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reclinou a cabeça para trás e, logo em seguida, passou a assoprar anéis de fumaça, ao mesmo tempo em que roçava o dedão do pé na estante. E, neste momento, seus olhos revelavam que, sem dúvida, ecoava em sua mente uma voz bêbada a recitar um texto que tanto a fascinava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Primeiro, permita a penetração e sugue o sêmen da combustão, mas o mantenha na boca. É necessário enrijecer as bochechas, fazer bico, mas que não fique muito fechado! Faça de tua boca um ventre, gere nele os miasmas do mundo, depois os deixe provir à luz dando pequenos coices com a língua, seguindo uma cadência Andante ma non Tropo. É importante encontrar e manter a intensidade do movimento lingual para que o orgasmo seja pleno e o nascimento, perfeito”. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Layla para de pensar. Ouve o som da chuva no telhado. Bebe, dá mais um trago e continua relembrando o texto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“São olhos oníricos de ciclopes que brotam de minha boca – Arrota – Vão, pouco a pouco, enfileirando-se, formando uma centopéia adornada de vísceras que, lenta e pegajosa, ruma para abóbada etérea até que se desmancha, e, em seguida, transforma-se em mundo, em vida, ou em fezes atmosféricas... Que causam erosões cutâneas com o tempo.” &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Tenho um haicai para você!”&lt;/em&gt; – Diz ela repuxando os olhos ao estilo oriental, rompendo o silêncio:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“pássaro indisposto&lt;br /&gt;um mau presságio:&lt;br /&gt;cocô cai no meu testa”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gargalha! Gargalha até chorar, segurando a barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Engraçadinha!”&lt;/em&gt; - Respondi com um sorriso contido enquanto subitamente me lembrava do tempo... Que tempo? Perdido no tempo... Onde aquela garota branquinha, de cabelos escuros e curtinhos, nariz de ponta vermelha, com um cachecol &lt;em&gt;Burberry&lt;/em&gt; já um tanto surrado cobrindo o intocável pescoçinho de marfim, tendo sobre os ombros um pesado sobretudo bege, sem dúvida comprado na liquidação anual da &lt;em&gt;Harrod’s&lt;/em&gt;, tocava seu violoncelo todas manhãs na &lt;em&gt;Totteham Court Road&lt;/em&gt;. Isso sem dizer daquele cheiro de banho &lt;em&gt;Lush&lt;/em&gt; que inundava as narinas de todos à volta e me fazia ver tulipas desabrochando nas antenas dos carros. Por vários meses – não sei quantos – parava para vê-la tocar. Os óclinhos redondos encobrindo o cenho cerrado refletiam as complexas partituras tremulando feito as bandeiras da &lt;em&gt;Mall&lt;/em&gt; em dia de desfile. Lembro também dos tênis &lt;em&gt;All Star&lt;/em&gt; nos pezinhos ágeis batendo o compasso. Esse aspecto em especial, a denunciava: era esquerdista. Ah, disso eu não tinha dúvida! Não demorou nada para que confirmasse essa minha suspeita. Certo dia, enquanto ela tocava, percebi que em sua bolsa gigante e desengonçada havia uma porção de livros de autores marxistas. &lt;em&gt;“Tudo bem. Seria pedir demais que ela fosse leitora de Hayek”&lt;/em&gt; – Pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da pequena nefelibata não conseguia esconder meu entusiasmo e excitação. Pensava que não havia nada mais sensual que uma mulher tocando violoncelo. Tinha a impressão que aquele timbre aveludado e grave era produzido em seu útero e emanado pelos grandes lábios, esbarrando no clitóris, causando pequenos frêmitos, enquanto o monte de Vênus se erguia... Ah, não era à toa que ela tocava com as pernas abertas! De lá saía de tudo: Stravinsky, Bach, Dvorak, até que um dia, para minha estupefação, ela deu à luz - vejam só! - um Pixinguinha “Carinhoso”... Mas tão carinhoso que eu até acreditei, por um instante, que o azul do céu tinha mesmo sabor de anis e que a &lt;em&gt;London Eye&lt;/em&gt; nem era assim tão destoante naquela paisagem às margens do Tamisa. Em seguida, ela estendeu a mão levemente suada em minha direção, e disse com um sorriso que lhe conferia graciosas covinhas nas bochechas: &lt;em&gt;“I’m Layla”&lt;/em&gt;. Depois daquele dia, passei a andar pela &lt;em&gt;Oxford Street “looking for flying sources in the sky”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repentinamente, ela interrompe meus pensamentos e se joga em cima de mim, amarra meus braços em suas costas nuas como uma menina medrosa que busca segurança. Podia sentir os seios - sutis erupções de sua epiderme - recostados sobre meu peito. Seu rosto escondido, se enterrando em minha orelha, sua respiração quente e ofegante em meu pescoço. Um soluço. Sinto lágrimas escorrerem por meu ombro. &lt;em&gt;“Que foi?”&lt;/em&gt; – Pergunto. Ela segue em silêncio. Observo sua nuca lívida, ávida por paz. Acaricio-a. Percebo que uma nesga de maquiagem foi vertida em meu travesseiro. Seus lábios, tais como pétalas glaciais e trêmulas, beijam meu rosto... Fiapo de vodka enroscando em meu lóbulo: &lt;em&gt;“Tô grávida”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, olhando para os veios do mogno da porta da sala, vi os pés do camponês arrastarem-se lentamente pelo plano e interminável campo de terra recém arada, onde as sementes adormecidas aguardavam a primeira chuva para acordar. A cada passada, um estalido do chinelo contra o pé cansado e sujo... E esse era o único som ouvido em quilômetros. O homem seguia alheio a tudo com o olhar perdido no horizonte que absorvia em si os últimos reflexos de um dia ensolarado. Tão só como ele, era o solitário castanheiro desgalhado a algumas dezenas de metros adiante, de onde a cotovia, por dentre os galhos, o espreitava atenciosa. Em algum lugar, impetrado naqueles vales infinitos e soturnos por onde a noite penetrava, devia haver alguma casinha com uma luz amarela na porta, com uma cerquinha tortuosa guardando dentro de si vaquinhas com seus bezerrinhos indefesos. E galinhas, e galos, sim. O brilho no olhar do pobre caminhante revelava tudo isso, e mais: um lar, o cheiro de roupas brancas quaradas ao sol das manhãs, o conforto de uma família desdentada que certamente o esperava de braços abertos para mais uma mirrada ceia. E, conforme o brilho mais aumentava em seus olhos, um certo ar de espanto se acrescia a eles. De repente, notou que seu caminho havia sido bloqueado por uma estranha parede metálica que se erguia impávida: uma maçaneta. Seu caminho se perdera, jamais alcançaria sua casa, estava fadado a andar por aquele cenário bucólico e vazio para sempre. Sua mente se perturbara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Layla, exausta e dopada, havia, então, repentinamente adormecido, porém segura, com um sorriso de alívio nos lábios. E sonhava... Sonhava ser uma árvore no topo de uma montanha qualquer; solitária e indefesa, porém majestosa, abria os braços em meio ao silêncio e, como uma soprano em &lt;em&gt;pianissimo&lt;/em&gt;, soltava seu agudo e aveludado canto; e o mundo, ainda em trevas, caía em pranto e desolação... As pedras murmuravam e lamentavam com suas boquinhas agonizantes. Arrostando a aragem matutina sentiu cada micro gotícula de orvalho suavemente pousar sobre sua pele, até que foram sorvidas por seus poros, enchendo-a de força, fazendo amalgamar-se a seiva dentro de si em uma nova vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um longo e profundo suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda sonhando, abriu os olhos e percebeu que tudo à sua volta borrara-se em lilás. O sol cravara suas lanças impiedosas no mundo e em suas retinas. E a terra, ensangüentada, manchava o céu em forma de aurora. As aves noturnas pipilavam sua dor recolhendo-se a seus desvãos... Pobres noctívagas criaturinhas. Enquanto as outras acordavam para um novo dia, emprestando-lhe a beleza de suas cores e de seu canto. E alguém a questionava repetidamente: &lt;em&gt;“A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo? A vida é ou não é um delicioso castigo?”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Chega!”&lt;/em&gt; – Grita sobressaltando-se na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça põe as mãos no rosto, sente tonturas e, sem ainda discernir realidade de sonho, olha para o relógio e tenta calcular quantas horas dormiu. Não dormiu muito. Ainda eram três da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanta-se enrolada nos lençóis, pois sentia muito frio, e, então percebe que não havia mais ninguém no apartamento, na verdade um studio. Grita pelo namorado: &lt;em&gt;“Marcos?”&lt;/em&gt; Não obtém resposta. Dirige-se correndo ao armário a fim de certificar-se daquilo que pressentira, e percebe que, no lugar das roupas dele, apenas velhas seringas... Ela volta a gritar inúmeras vezes por seu nome, até que, cerrando os punhos e erguendo a cabeça para o teto, arrebenta de sua garganta um grito lancinante que faz acender a luz do apartamento do lado: &lt;em&gt;“Está tudo bem, moça?”&lt;/em&gt; Ela, caída no chão, responde que sim, disfarçando o choro que a dominava. Em seguida, lança violentamente seu rosto contra a parede, e lá o esfrega, registrando naquele espaço uma estranha pintura feita com as marcas de seu sofrimento atroz, composta por gliter, outras maquiagens baratas, coriza e sangue. Desenha lá uma forma quadrangular, algo que remete a Rothko. Geme de dor, engasga-se, baba e uiva assim como o vento que batia na janela daquele último andar. Sentia uma mistura de desespero, náusea e repulsa por si e pelo o mundo que a rodeava. Depois de muito lamentar, acabou adormecendo novamente ali no chão mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia nasce pelas sujas janelas. &lt;em&gt;“Dois graus em Westminster. Pancadas de chuva durante o dia todo” &lt;/em&gt;– Diz o rádio relógio, mais um objeto deixado por Marcos. Ela o atira na parede. Apesar do frio que assolava Londres naqueles dias, o frio que assolava sua alma era ainda maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Layla levanta-se com dificuldades, segurando o lençol envolto em seu corpo e dirigi-se ao banheiro; ao parar ante o espelho, com uma mistura de sarcasmo e melancolia, diz baixinho: &lt;em&gt;“Hello, Stranger”.&lt;/em&gt; Fica por alguns instantes observando sua face. Realmente não se reconhece. Vê lá sangue e secreções ressecadas. Seu cabelo está sujo e fétido. Olha fixamente para os comprimidos no armário, mas não os pega. Não ousa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem se dar conta, senta-se na banheira branca com pés de latão e, por alguns minutos, deixa a água escorrer por seu pescoço. Sentia-se exausta e dolorida, mas acariciada por aquela água morna; sua garganta arranhava. As junções dos azulejos se fundiam e se confundiam em suas vistas, e ela as esfregava impacientemente com a mão. Um pequeno regato se formava nos vãos de seus braços cruzados, tinha vontade de mergulhar nele, e lá, se esconder para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou pela janela do banheiro e constatou, mais uma vez, a chuva incessante. E, apesar de tudo, tinha capacidade de enxergar algo de belo naquele&lt;em&gt; fog&lt;/em&gt; cinza escuro que contrastava com o brilho baço das ruas de asfalto por onde faróis automotivos ziguezagueavam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já devidamente agasalhada, sentou-se na mesma cadeira que sentara no dia anterior. Ficou lá, no escuro, observando a vidraça que abrigava inúmeras gotículas de chuva apinhadas, enquanto algo de Chopin tocava no &lt;em&gt;CD player,&lt;/em&gt; mas nada se passava por sua mente. Aos poucos, o cheiro de banho, o toque do tecido, começaram a lhe causar pequenos frêmitos, lhe davam uma aparentemente desmotivada sensação de "voltando para casa". Sua alma parecia estar em degelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez sem pensar, quase que instintivamente, preparou-se um copo de leite quente e o tomou molhando &lt;em&gt;cookies&lt;/em&gt; nele, feito criança. Degustando lentamente aquele pequeno prazer, lembrou-se de quantas vezes, durante a infância, após as árduas tarefas da escola que lhe deixavam tão exausta, sua mãe, em Camberra, lhe dava &lt;em&gt;cookies&lt;/em&gt; para molhar no leite quente... Como aquilo a confortava! Fechando os olhos, sentia ressoar por todo seu crânio o compassado triturar deles. Tal som era como se a terra estivesse abrindo-se toda em fendas e delas brotassem rios de chocolate por onde, em gôndolas de morango, navegavam elfos a tocar suas flautas. Cada uma de suas papilas gustativas era invadida pela intensidade daquele sabor terno e maternal. Logo, toda sua boca pareceu encher-se de glória e paz de modo que, naquele momento, pensava ser capaz de proferir discursos que aplacasse todo ódio, toda vaidade e toda cegueira da humanidade. Mais uma vez, fechou os olhos e suspirou profundamente... Limpou os resquícios de chocolate em seus lábios e tornou a lembrar do estranho sonho que tivera durante a noite. Nada lhe parecia muito coerente, mas aquelas imagens persistiam em sua mente. Uma sensação de abandono, medo e insegurança tentavam fazer parte de suas emoções, ao que ela bravamente resistia. Policiava-se para não pensar no que sucedera naquela madrugada. E continuou lá por horas, quietinha, abraçando os joelhos e ouvindo Chopin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Onze meses após...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não entendi o motivo que me fez despertar tão calado aquela manhã. Não tardei a perceber que não somente eu estava assim, mas tudo em redor. As crianças, debruçadas na pia, escovavam os dentes em silêncio e entreolhavam-se desconfiadas. Não posso dizer que me sentia triste ou preocupado, apenas sentia-me estranhamente anestesiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto me vestia, reparava pela janela que o clima estava denso de modo que a mim parecia que o mundo estava em &lt;em&gt;slow motion&lt;/em&gt; – Um nó &lt;em&gt;windsor&lt;/em&gt; na gravata azul devidamente discreta – abaixo, poucas pessoas transitavam na &lt;em&gt;Beaver&lt;/em&gt;. Um mendigo carregava no pescoço uma placa que dizia: &lt;em&gt;“O fim está chegando”. “Nuts”&lt;/em&gt; - Pensei. Era um desses típicos personagens da &lt;em&gt;big apple&lt;/em&gt;. A estátua da liberdade, ao contrário de todas outras manhãs, mais parecia uma velha cataplasma se rastejando pela baía de Hudson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tereza, a babá, entra sem dizer bom-dia e penso que ela está nervosa com o marido. Sabe como são estes imigrantes, né? Ouço somente o barulho da porta – uma colherada no cereal com leite integral – &lt;em&gt;“Pelo menos um bom-dia...”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ao sair na soleira percebi que o jornal do dia não estava lá. &lt;em&gt;“Tereza, você pegou o jornal?”&lt;/em&gt; Ela não responde. Acho que fala pouco inglês. Procurei em cada uma das portas dos apartamentos vizinhos, talvez o entregador tivesse se enganado, mas não. Tudo estava quieto e extremamente limpo no &lt;em&gt;hall&lt;/em&gt; e os elevadores estavam milagrosamente parados em meu andar. A impressão que me restava era a de que todos estavam de férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descia pelo elevador e, pela primeira vez em tantos anos vivendo naquele velho edifício, parei para observar as paredes revestidas em cerejeira. A viagem de descida era longa, afinal vivia no vigésimo andar, o último. O cheiro de lustra móveis, por algum motivo, me deixava ansioso. Lembro-me que, quando criança, mamãe me levava ao médico. Ele, com aquela barba branca e com aqueles olhos de pálpebras empapuçadas que, de tão pesadas, deixava a mostra o vermelho vivo de seu reverso colado às suas retinas – Dá uma mordida numa banana que carregava consigo - confesso que temia... E esse elevador tem o mesmo cheiro daquele do prédio do consultório. É isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador parou no oitavo andar. Uma moça negra com um cabelo estilo &lt;em&gt;black power&lt;/em&gt;, exageradamente perfumada com uma essência adocicada e indevida para o horário, entrou cabisbaixa. &lt;em&gt;“Ninguém mais nesse mundo diz bom-dia?”&lt;/em&gt; – Pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tanto desconsertado, como sempre fico em elevadores com pessoas desconhecidas, fixei meu olhar naquele painel de latão polido onde ficavam os dígitos já um tanto desgastados. Lá podia ver refletida uma metade de meu rosto e uma metade do rosto da moça. Ambas faces recobertas por uma leve camada de poeira. Tão iguais diante do reflexo que me parecia que uma era continuação da outra, entretanto, a face híbrida não era exatamente bela. No meio do emaranhado de cabelos dela, podia ver veredas empoeiradas incrustadas no coração da África em dias de calor escaldante por onde transitavam imponentes munsis, com seus corpos de ébano, montados em elefantes e zebras. Era tanto céu, tanta terra dentro do painel do elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Chegou, senhor Robert”&lt;/em&gt; – Disse o porteiro delicadamente abrindo a porta de ferro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segui meu caminho como todos os dias. No metrô fui lendo um relatório administrativo quando senti um geladinho na minha mão. Era uma menininha que me cutucara com o dedo indicador. Ela sorria para mim descaradamente. Olhei para os lados e senti-me desconfortável. É impressionante como crianças me envergonham. Acho que nunca tive muito jeito mesmo para ser pai, mas acabei sendo. Entretanto, não seria capaz de lembrar como tudo isso aconteceu... Digo, como me casei, me divorciei, tive filhos, me formei. Parece que tudo isso foi tão natural, tão mecânico. Não consigo me lembrar de nada que possa dizer &lt;em&gt;“nossa, aquilo sim foi significativo para mim”.&lt;/em&gt; Sim –amo meus filhos, amo talvez porque tenha que amar, porque é certo que seja assim. Sempre fiz o que era certo fazer. Mas, mal sabia eu que, naquela manhã, tudo estava prestes a mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao subir pelas escadas rolantes, comecei a ouvir um som profundo e hipnótico no meio do ruído incessante da estação, do guinchar dos trens. Com o relatório debaixo do braço, mais uma vez sem saber porquê, segui a direção daquele som, afoito, como é bem comum andar nestes lugares mesmo que não se esteja com pressa. O som era grave. &lt;em&gt;“Um violoncelo? Sim – era um violoncelo!”&lt;/em&gt; Tocava algo minimalista, arpejava uns acordes, algo escandalosamente simples, mas imbuído de um lirismo que nunca vi igual, uma dramaticidade profunda. &lt;em&gt;“Philip Glass?”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então lá foi Robert se aproximando e, às voltas de onde emanava aquele som, havia uma pequena multidão em estado de contemplação. Movido por uma grande curiosidade, foi se infiltrando entre as pessoas, que pareciam imóveis; até que, finalmente, pôde ver o que tanto as atraía, pôde ouvir claramente aquele som que tanto havia lhe calado. Uma cena tocante, de uma beleza frugal, quase religiosa: uma moça com uma saia longa abrigando entre os joelhos as costelas do robusto violoncelo de uma coloração quase negra, imponente. Seu arco, com a ponta lascada, deliciosamente planava sobre as cordas, acariciando-as; os dedos, firmes como os de uma rainha impiedosa, cravados no braço do instrumento, faziam as cordas tremerem de medo e a alma de madeira clamar com voz lamuriosa; os cabelos, multicoloridos com um corte alternativo, se enroscavam, vez ou outra, na voluta, nas cravelhas e até mesmo na pestana dependendo da expressão que seu maestro imaginário conduzia. A seu lado, um bebê tendo como berço o estojo do violoncelo. Encapotada, a menininha parecia alegre e talvez um pouco assustada. Emitia grunhidos e esticava as perninhas. Robert, desfigurado, sentia a própria pulsação como que seguindo o mesmo ritmo repetitivo e intenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com cerca de trinta e quatro anos, Robert se dava conta, pouco-a-pouco, enquanto ouvia aquela música e via aquela cena, que havia renunciado a vida desde que nascera. Sua trajetória, até aquele momento, tinha sido apenas esperar, esperar, esperar que algo realmente excitante acontecesse. Aquela música parecia querer dizer-lhe alguma coisa, lhe incomodava, como nunca antes uma música fizera, nem mesmo as de Bruce Springesteen que serviram de trilha sonora para sua juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebe, então, que o tédio, o vazio, a letargia, que sentira quando acordara naquela manhã eram sintomas de sua existência, sintomas tais que jamais eram sentidos enquanto se dedicava ao árduo e constante trabalho. Fora das obrigações, Robert não passava de um monte de músculos e ossos perambulando por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depositou dois dólares ao lado do bebê que, como se fosse por gratidão, sorriu lindamente pare ele arregalando dois olhos azuis de um brilho intenso, como o azul da eletricidade. Atordoado, ele foi saindo lentamente, caminhando para trás e com os olhos fixos na menininha... Que sorria cada vez mais. Sentia um nó na garganta, seus olhos estavam marejados e suas mãos suavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subindo pelas escadarias, já vislumbrando a cidade e seus arranha-céus. O vento estapeava o rosto daquele burocrata de cabelo loiro e encaracolado. Parou. Olhou para o relógio, e, com um semblante assertivo, pensou: &lt;em&gt;“dane-se a reunião!”&lt;/em&gt; Desceu rapidamente as escadas do metrô e foi direto ao lugar onde estava a violoncelista, mas não mais a encontrou, para sua decepção. Perguntava para os guardas e passageiros que por ele passavam, mas ninguém sabia lhe responder. Afrouxou a gravata e começou a correr desesperadamente pelos corredores, esbatendo em quem viesse pela frente. Sabia apenas que corria. Viu uma moça de costas, falando ao telefone público. Parecia ser ela. Robert atirou-se em sua direção, a moça virou-se assustada: &lt;em&gt;“Não te conheço!”. “God damm it!”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Tudo ficou em silêncio. Ao longe, Robert viu a violoncelista com o bebê no colo, carregando o estojo do instrumento no ombro e entrando no metrô. A porta se fecha. Ele, com o rosto vermelho e suado, berra: &lt;em&gt;“Moça!”&lt;/em&gt; Layla olha tranqüilamente em sua direção, mas não o vê. Está completamente absorta em seus pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trem segue infiltrando-se no túnel, mas seu som parece ainda marcar a melodia de Layla, que ficara fincada no cérebro de Robert, que agora, de cócoras, lamenta copiosamente na plataforma. Nisso, uma garota achega-se a seu lado, o encara com um olhar assustado e, sem cerimônias, vomita violentamente. Seu vômito sem cor e de espessura grossa parece ser infindável, como um rio caudaloso e fétido que arrebenta seus diques. Ele olha para tal cena inconformado, meneando a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais um silêncio aterrador... E o chão vibra. Um som surdo vem da superfície. Não demora muito até que uma densa massa escura invade as escadarias, deixando a plataforma da estação um verdadeiro caos, onde não se enxergava um palmo adiante. Um policial grita, com uma lanterna na mão, avisando para que todos o sigam, pois o local deve ser evacuado imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Meus filhos. O elevador. O mendigo. O vômito. Tereza, bom-dia. O violoncelo... A violoncelista!”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do celular, tenta ligar para casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O telefone tocou uma vez. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O telefone tocou pela segunda vez. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O telefone tocou pela terceira vez.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Holla, diga señor Robert!”&lt;/em&gt;– Diz Tereza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sinal caiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas depois, correndo pela &lt;em&gt;Wall Street&lt;/em&gt;, topa de frente com o mendigo: os dois caem no chão e a placa dele sai rodopiando pelo asfalto até que uma viatura da NYPD passa por cima dela, estraçalhando-a. Com o tombo, ralou o ombro e rasgou a camisa. O sangue escorria por seu braço que, como o restante de seu corpo, agora estava recoberto de uma espessa camada de poeira. Ao entrar no edifício, o porteiro parecia petrificado. Robert faz um sinal de afirmação com a cabeça para ele. No &lt;em&gt;hall&lt;/em&gt;, o elevador não estava parado. Resolveu subir pelas escadas. Parou no oitavo andar, não suportou o cansaço. Lá, ele vê a moça negra, sentada no chão, em posição fetal, dominada pelo desespero. Consegue pegar o elevador e, durante o trajeto, cai no chão do mesmo, escorregando pelas paredes, deixando lá sua marca de desespero e cansaço, composta por suor, poeira e sangue. Os músculos de seu rosto estavam todos enrijecidos, contorcidos. Veias saltavam de sua testa, por onde escorria o suor. Irreconhecível. Até que, finalmente... A porta do elevador se abre e, novamente, ele tem a sensação que o mundo está em &lt;em&gt;slow motion&lt;/em&gt;. Seus dois filhos vêm em sua direção correndo. Ele se ajoelha, desliza pelo mármore indo de encontro às crianças, e, em prantos, as abraça como nunca antes fizera; em seguida, vem Tereza e faz o mesmo. A luz automática do &lt;em&gt;hall&lt;/em&gt; se apaga e apenas um clarão vindo de sua porta entreaberta ilumina aquelas quatro pessoas abraçadas a chorar pelo simples motivo de estarem vivas. Pelo vão da porta, era também possível ouvir o noticiário mostrando repetidamente as imagens da tragédia ocorrida horas antes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Robert havia, finalmente, renascido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele mesmo dia, ele teria uma reunião às nove e dez, no &lt;em&gt;Jp Morgan&lt;/em&gt;, numa das torres gêmeas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas semanas após, bombeiros testemunharam que, em completa escuridão, ao vasculharem o &lt;em&gt;shopping center&lt;/em&gt; que ficava entre as torres um e dois do &lt;em&gt;World Trade Center&lt;/em&gt;, encontraram, próximo do elevador de cargas, um feixe de luz vindo da superfície incidindo sobre os escombros, e os penetrando; abaixo deles, encontraram o corpo de uma moça atado ao de um bebê com poucos meses de vida e também a um violoncelo espedaçado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era como uma árvore esticada sobre o chão segurando ferrenhamente seu fruto e sua paixão. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;----0000----&lt;br /&gt;Otávio Augusto Martinez&lt;br /&gt;Verão de 2008&lt;br /&gt;Atibaia&lt;br /&gt;----0000---- &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-9201754103306131019?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/9201754103306131019/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=9201754103306131019&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/9201754103306131019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/9201754103306131019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2008/01/violoncelista.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-6842123374738125067</id><published>2007-10-13T15:28:00.000-07:00</published><updated>2007-11-14T08:02:00.405-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Voyeur&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Manhã&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pressionando as pálpebras firmemente, mergulho a face no desconhecido. Do Caos, vejo a criação. Vejo o Edem. Vejo o barro. Vejo o pecado. Vejo o sangue... Aspiro o som nasalado do vento, como que emitido por grandes tubos de um órgão solene. É o hálito de Deus que recende a chuva, a terra molhada e ao sal dos oceanos. Suspenso no universo, com um meio sorriso nos lábios, sinto as cócegas das estrelas, coço as costas de Plutão e bebo o leite da via Láctea. E da escuridão profunda me vem a imagem de uma cidadela: uma pequena colcha de retalhos com costuras tremeluzentes. Cheio de falhas e faíscas é o centro dela visto daqui. Abaixo de uma lua em forma de arco de unha cortada a gotejar argenta luz em meio a turbulentas nuvens, como rolos negros de fumo de alcatrão, circunscritos, contudo, com filigranas de prata, vi as abóbadas das árvores apresentando-se atapetadas de orvalho... Os telhados imperfeitos abrigando as gentes - vi até os olhos azuis da pequena Allegra. Lá estava ela, friorenta com os braçinhos cruzados contra sua bonequinha de pano ao lado da janelinha verde, vestindo um peignoir vinho enfeitado com miçangas cor-de-rosa; suas bochechas róseas a cintilar suas lágrimas de pavor, enquanto seus irmãos, à luz das trêmulas velas, exibiam suas serenas carinhas imergindo da brancura perfumada dos lençóis, dormindo placidamente e tendo suas mãozinhas entrecruzadas sobre seus peitos como quem aguarda pacientemente a chegada da aurora que, lentamente vinha tomando de assalto as ruas, as cidades, o continente, revelando os segredos, desnudando os crimes cometidos na calada da noite, estapeando o rosto da humanidade e revelando a previsibilidade de seus atos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que Apolônio singrava pelas vielas, tossindo e pigarreando; enquanto dirimia a chama fosca dos lampiões envoltos na azulada e aveludada névoa matutina, esta se dissipava, e assim se tornava possível ver seus pés descalços. Um deles, visivelmente bichado, tendo espessas escamas, como cascas de mogno, cobrindo seus poros e, abaixo dele, abaixo das rodas do tílburi, dos prédios públicos, da igreja da matriz, das ruas de barro, dos cascos dos cavalos que indolentes puxam seus plaustros à luz do dia, dormia a terra que, erguendo seus joelhos e ombros em seu interminável sono, sonhava ser céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ponta da Travessa Sem Saída que, naquela época, ainda dava costas para um regato mal cheiroso, Apolônio constatou que, naquele momento... Não havia nada de muito importante para se pensar, pois é bem verdade que há uma época na vida que os homens, mais do que nunca, se sentem meros autômatos, vãos pensadores, massas vazias perambulando num espaço infinito, indefinido; é nessa época que também cai sobre eles o peso da inércia, a culpa por nada de significativo fazer pela humanidade, como, sei lá, cravar o punhal em Marat. Acender e apagar as luzes todos os dias. Pensar nas pequenas-grandes questões, não mais. Galgar a terra a cada dia se enraizando como micro pústulas (ou seriam sanguessugas?) no enrugado e milenar úbere azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apolônio simplesmente seguiu seu caminho navegando no céu de nuvens refletido nas poças d’água, e então os tordos trucilaram quase que no mesmo instante que Dna. Hulda abriu uma frestinha da porta fazendo soar os guizos. Sim, era natal. Para ela, particularmente, tratava-se de uma época de tristes lembranças... A guerra dos Habsburgos e de todas aquelas pomposas famílias da Europa, os estrondos do canhoneiro, as suas conseqüentes vitimas - que agora jazem em paz nos confortáveis papeis repletos de arabescos das paredes amareladas das salas - e todas essas coisas que essa gente velha carrega com tremenda e insistente veladura e que todas as manhãs, quando acordam assombrados e palpitantes, passam a impressão que não acabaram, que ainda estão vivas. A sensação de que brevemente estaria ela ocupando um espaço da parede de alguém não a assustava, pois sabia que ninguém a considerava a tal ponto. Nunca dirigia uma palavra a uma vizinha, se fazia indiferente ao choro dos bebês do bairro, mas, mesmo assim, não expressava altivez ou petulância. Era apenas irrelevante. Ficava estranhamente feliz ao imaginar que, diferentemente de todos, não serviria de tralha histórica até que seu nome virasse fuligem ao dobrar dos séculos, que não daria lágrimas a ninguém, bastava as que derramava todas as manhãs... Para ela, as manhãs eram destinadas aos cultos sagrados aos mortos, pois emaranhados ao marulhar monótono das águas do regato, escoavam pelos átrios de sua memória, o som do amor, o gosto da tristeza e o cheiro do pranto de outrora... E ela nem percebeu quando a matriz badalou as onze e o feijão queimou. Findou sua diligência apenas ao ouvir o sineiro da bicicleta do carteiro tinir, e afoitamente foi ter com ele a fim de saber se havia algo para ela, talvez uma posta-restante do&lt;em&gt; front&lt;/em&gt;... Mas nada. Não havia nada. Decepcionada, no meio da rua, ergueu os braços para o céu e os suspendeu violentamente em seguida; permaneceu curvada até que, com os olhos cansados, para sua surpresa, avistou um homem na porta da casa abandonada. Estava sentado nos degraus maquilados com a pátina do tempo que já vira tantas chuvas de verão e umidades de invernos que lhe deixaram como herança os tons variegados de musgo e negro. O homem era uma visão incomum para aquela rua quase despovoada, mais incomum ainda era seu aspecto: mãos longas e manchadas pendidas sobre os magros joelhos, rosto comprido, escalavrado, tingido em cores difusas, vestido em linho bege, chapéu, cigarro de palha na boca aceso a todo vapor como a fornalha de um transatlântico. Não se movia; a luminosidade que vinha de dentro da casa hora dava-lhe uma face jovial, hora envelhecida; não se sabia se era pobre ou rico, não se sabia nem para onde tinha seu olhar voltado visto que usava óculos escuros.&lt;em&gt; “Quem seria esse homem?”,&lt;/em&gt; pensou Dna. Hulda, envergonhada e temerosa, hesitando em acenar, atitude tal que não ornaria com seu recato. Não o fez. Já voltando lentamente seus olhos para a casa de Dna. Veridiana, que ficava à direita da casa abandonada, de relance, viu, através da janela de vidros globulosos, que em sua cozinha o calendário indicava a data de Onze de Dezembro de Mil Novecentos e Dezenove, data que não fazia a mínima diferença para ela, mas era de suma importância para Celso, filho de Dna. Veridiana que, na ocasião, ganharia um violoncelo do pai em celebração ao seu sexto aniversário!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“É uma pena que Allegra, com seus óculos de aros de tartaruga, já não esteja mais entre nós para nos contar aquelas pitorescas estórias sobre paragens longínquas, castelos romanescos e heróis destemidos”&lt;/em&gt;, dizia Prof. Otto em pensamento segurando alguns livros que haviam acabado de chegar da capital, ao mesmo tempo em que sorvia o restante de um café já frio, servido em uma xícara de bordas carcomidas e com gravuras chinesas, lá no bar do Seu Hector; a xícara era de estranha graciosidade: nela era possível observar cules vestidos em azul em meio a infinitos arrozais que ondulavam ao impulso da aragem como um denso e irrequieto oceano verdolengo. Mais ao fundo, das entranhas das montanhas de cumes decepados pelos cúmulos nimbos tão baixos como se apresentavam naquela hora quiçá matinal, vinha um nobre manchu vestido em preto, pousando tal como espectro faustoso e temido, flutuando sobre as águas caudalosas; e, conforme os mares se abriam, entrevia-se um lacaio escanifrado e suado galgando com seus pés descalços a terra molhada e viçosa da estradinha que serpenteava aquela planície: carregava o nobre circunspeto em um jinriquixá. Havia uma pequena vida acontecendo ali, e ninguém se dava conta... Mas o café era caro, suas ações despencavam em Wall Street. E isso preocupava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade. Como fazia falta a graciosa Allegra com seu rostinho sardento! Sua voz, tão suave, se entrelaçava à brisa vespertina, eriçava as cortinas, perdia-se nos cachos de Virginia e depois ia ecoar lá nos fundões do mundo, ou do outro lado da rua... Tanto faz, tocando a nuca de Celsinho que teimava no violoncelo: &lt;em&gt;“do, re, mi... Não, é mi bemol!”&lt;/em&gt; E, mesmo assim, ainda o menino de face alaranjada sorria faceiro. O que suecos faziam nesse lugar tão sem propósito? Não sei, mas Dna. Alice dizia que eles fugiam do frio. Professor Otto, ex-integralista, costumava dizer que muitas pessoas eram alérgicas a democracia, como ele mesmo, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Pietro, menino traquinas, sempre com aqueles olhos proeminentes de um azul cobalto atentava mais para as pálidas mãos de Allegra onde pousava aquele velho volume. Tão bruto na aparência, tão suave na essência. Era assim: continente e conteúdo. A boca da triste moça parecia ter parado no tempo. Restava-me a impressão de que, a qualquer hora do dia ou da noite, lá estaria ela em sua cadeira Windsor (que o pai trouxe da Inglaterra de navio!) pronta para contar a próxima aventura ou romance. Na maioria das vezes, ela esboçava palavras que não alcançavam meu rude conhecimento de criança, mas que, por algo que sabe se lá como os homens devem chamar, me causava fascínio. Pena que se fora tão cedo. Era tudo como um sutil adágio apenas perceptível aos anjos. Tudo tão deliciosamente naïf, como toda infância o é. Talvez seja por isso que ainda gosto tanto daqueles pré rafaelitas que hoje podem ser encontrados nos calendários da farmácia ou daqui do bar”&lt;/em&gt;, dizia professor Otto para si mesmo enquanto limpava os resquícios de açúcar de confeiteiro que ficara nos cantos dos lábios e embaixo do bigodinho extremamente fino e uniforme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As imagens da infância já iam naturalmente se apagando como se estivessem derretendo ante o sol ardente daquela tarde primaveril, um sol que se derramava todo sobre a Travessa Sem Saída. De repente, um gato dourado e peludo por ali passava, rolando envolto na poeira como fragmento desprendido do Astro-rei. Preguiçosamente esticou-se, arqueou a corcova, roçou-se nas azaléias e, com os olhos semicerrados, deitou-se na soleira da casa onde vivera Dna. Hulda, agora habitada por Dna. Maria Amália, a artista plástica; o gato tinha como plano de fundo um São José de azulejos pintado em azul com um pincel grotesco, mas que ainda sim preservava um certo olhar piedoso e egrégio que parecia derramar certo sentimento de proteção e, por que não?, candura. O bichinho adormeceu sobre seu próprio pelo macio e cálido; parecia estar inebriado no intenso (e quase insuportável) olor exalado pelas goiabeiras que, para mim, via de regra, prenuncia uma desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor pagou e seguiu caminhando pela rua com seu andar canhestro, típico desses homens que se entregaram aos livros ao invés de se entregarem à vida. Tinha os pés abarrotados de passado, as mãos trêmulas de presente e os olhos cegos de futuro, foi quando ele viu, pela primeira vez, sentado nos degraus da entrada da casa abandonada, a estranha figura do homem desconhecido.&lt;em&gt; “Quem seria esse homem?”&lt;/em&gt;. O homem estava parado, vestia as mesmas roupas, tinha a mesma cara vista por Dna. Hulda; olhava para o infinito através de seus óculos escuros. E naquelas lentes redondas se refletiam o horizonte e tudo que por ele passava. Tal silêncio e gravidade pressupunham temor, inevitavelmente. O professor, sempre interessado em um papo com os moradores do bairro, foi, a passos temerosos, se aproximando do homem – dizem as más línguas que Otto, inclusive, tencionava candidatar-se à vereança e, por esse mesmo motivo, sempre se apresentava tão simpático e falante, chegando a beirar, por vezes, o ridículo. Porém, quando Seu Hector gritou: &lt;em&gt;“Doutor, o senhor está esquecendo esse aqui”&lt;/em&gt;, o professor voltou-se bruscamente para o estabelecimento. – Um fusca amarelo passou em alta velocidade, levantando uma imensa nuvem de pó. Dentro dele, quatro negros com olhos ressabiados de azeviche – &lt;em&gt;“Comunas de merda. Pensam que vão salvar o mundo”&lt;/em&gt;, pensou Otto. &lt;em&gt;“O que foi, Hector?”. “O livro, doutor. Tá esquecendo!”.&lt;/em&gt; Otto dirigiu-se até o bar maldizendo sabe-se lá o que ao mesmo tempo em que uma cambada de gralhas se apinhava na beira do regato em tremenda algazarra, por vezes chegavam até a trocar bicadas entre si. E, ao observar as mãos ensebadas do pobre homem que marcavam a capa verde e lustrosa, não conseguiu esconder a cara de nojo. Ao pegar o grosso volume com as pontas dos dedos da mão esquerda, inevitavelmente deixou-o cair no chão de azulejos hidráulicos retratando flores de lis... E o livro ficou lá, estatelado, bem na página onde constava o seguinte verso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“To see the world in grain of sand&lt;br /&gt;and Heaven in a wild flower.&lt;br /&gt;Just hold infinity in the palm of your hand&lt;br /&gt;And Eternity in an hour.” *&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O recibo de entrega foi flanando lentamente sobre o solo até que uma rajada de vento o soprou aos céus, passou pela careca de Hector, titilou os dedos pequenos de Professor Otto, ameaçou pousar no chapéu de palha em formato de balde de carvão de Virginia... Mas não! Foi lentamente rendendo-se ao solo... Até beija-lo com delicadeza, indicando orgulhosamente, com uma letra quase ilegível: “encomenda entregue em Vinte e Um de Setembro de Mil Novecentos e Sessenta e Oito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Noite&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tal cena fosse pintada por Dna. Maria Amália, precisamente na época em que ela ainda não havia se rendido ao já ultrapassado cubismo, os incultos certamente diriam que se tratava de um retrato de alguma viela da Úmbria, da Toscana ou até mesmo da Calábria, visto que a fumacinha com aroma de camomila que saía da janela da enferma Dna. Virginia, agora viúva de Prof. Otto, poderia ser, sim, tranqüilamente confundida com o negro-fumo do inquieto Etna. A água-forte faria correr rios de tinta para os críticos de plantão. Uma versão feminina e contemporânea de El Greco poderia ter despontado em plenos anos quarenta! Se bem que devemos considerar os embates que teria com a elite cultural oriunda de Vinte e Dois e suas pequenas fatwas que, diga-se, permanecem até hoje. Aquelas cores intensas, algumas até metálicas, o pincel grosso, a rusticidade do traço... Imagem mística, levemente borrada, tortuosa, porém fria, que até mesmo ao retratar a paz e o recato de um anoitecer como esse, no meio do nada, não deixaria de ser tenebrosa, dolorida, soturna. Acreditem, não haveria exagero de artista. Aquela rua que, naquela noite, mais se parecia com um rio por onde escorria o luar, realmente parecia ter formas imprecisas. Não se sabia bem ao certo onde acabava o pavimento de paralelepípedos e onde começava a perna do cachorro pulguento que nadava pela calçada encoberta de neblina e fumaça. Não se sabia o que era nuvem ou fumaça de jantar, nem onde, de fato, estava a lua. Fragmentada em mil gotas de formas estelares?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino como seria retratada a delicadeza dos dedos de Dna. Virginia, abrindo lentamente a cortina de renda branca. Na outra mão, o missal, claro. Pobre mulher, parecia tão assustada ao ouvir o crujar de um mocho-diabo: &lt;em&gt;“uûh... uûh... uûh”&lt;/em&gt;. Pietro não ouviu. Deitou-se sob os alvos lençóis, apagou as luzes e, fugazmente se lembrou dos lampiões que ficavam acesos durante a noite quando era criança. Em seguida, lembrou-se do irmão, Otto, que dormia a seu lado, e que agora dormia na sala... Num retrato da parede... Branca, como recomenda o bomgostismo minimalista, ou a simples falta de ânimo ou dinheiro. As lembranças logo lhe trouxeram sono. Entrecruzou as mãos sobre o peito não mais como quem espera pacientemente pela aurora, mas, sim, impacientemente pela derradeira e eterna noite. Seu último pensamento, antes do enfarto, foi: &lt;em&gt;“Allegra, se fosse viva, ficaria muito triste ao saber que Celso, seu amor, está sucumbindo. Tanto sonhava com ele. Recortava todas as fotos das revistas porque algo nelas sempre a fazia lembrar dele. Ia ao cinema, duas, três, vezes para assistir o mesmo filme só porque o galã tinha algum traço que remetia o semblante sereno, tímido e robusto do violoncelista”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Dizem que o pintor pinta suas emoções numa tela e o compositor, no silêncio. Não há nada mais doloroso que uma sala totalmente branca, acética... Não há, na face da Terra, nada mais doloroso que esse silêncio. Falta minha cabrocha: meu violoncelo. Um mundo sem cores e sons não é mundo, é castigo”&lt;/em&gt;, pensava Celso, imóvel, com os olhos vidrados, segurando uma página de jornal amassada, cuja principal manchete era: &lt;em&gt;“Famoso violoncelista e compositor abandona carreira após colapso nervoso”&lt;/em&gt;, mais abaixo, lia-se o comentário de um violoncelista russo: &lt;em&gt;“Celso era um notório virtuose, destacou-se por ser um dos mais inovadores compositores de nossa era, além de ótimo interprete. É muito triste saber que agora vive seus dias sem poder andar, falar e ouvir”. “Hora de dormir, Seu Celso”&lt;/em&gt;, disse a enfermeira retirando calmamente o jornal da mão do pobre enfermo, quando algo no cabeçalho da página chamou sua atenção. Um sorriso maroto nos lábios: &lt;em&gt;“O senhor sabe que dia é hoje?”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celso fechou os olhos e ouviu, após tanto tempo de angustiosa abstinência sonora, a redentora suíte N° 1 em sol maior para Violoncelo, de Bach. Foi crescen... Crescen... Crescendo! O som provinha não de um cello... Mas da boca de Allegra... Esplendorosa! Fulgurante! E ele berrou com todas as forças da alma no mesmo momento que se descortinaram os céus com todas suas rochosas nuvens... Pedras d’ouro! As doze portas com milhares de pedras preciosas incrustadas foram, finalmente, abertas. E aquela suíte então tomou o timbre de mil anjos com suas trombetas douradas! Alaúdes! Flautins! Tímpanos! Virginais! Violas da gamba! E harpas com cordas de tripas de cordeiros! Eia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ninguém, além de Celso, ouviu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo vieram os agentes funerários que, de pronto, desfizeram o sorriso estampado em seu rosto, bem como limparam o trono glorioso de urina que a excitação lhe concedera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento soprou forte. Uma. Duas. Três vezes. Desta altura, a rua tinha agora um aspecto monástico. Ao invés de árvores atapetadas de orvalho: árvores de cimento prenhes de luz. Eram como São Franciscos, com seus halos, que se curvavam ao pé da rua em deferência à procissão de silêncio que por ali passava... E o homem desconhecido a encarava. Estava igualzinho, no mesmo lugar; talvez nem seja preciso dizer, mas ainda mantinha o cigarro de palha aceso na boca. Não me parecia humano. Parecia-me mais um salgueiro desgalhado postado na soleira da casa abandonada, que não tinha outra função senão impedir a entrada de gatunos ou de quem quer que seja que a tanto intentasse. Nada além disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, com os olhos grudados naquelas lentes, parecia se dividir ou se defender do mundo; ficava lá, guarnição rente à fronteira da realidade. Impenetrável... Anos a fio, tantas imagens, pessoas, fatos e cores passaram ante seus olhos... Ah, puxa! Mas, sinto dizer, nada disso lhe fez alguma diferença, afinal, meus caros, o homem desconhecido, era, antes de tudo... Um homem cego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntam-me, e eu digo: tenho formas helicoidais a maior parte do tempo; dentre minhas curvas passa a vida. Mas naquela noite invernal tomei uma forma reta, imperfeita, cansada demais. Fui me esvaindo, desgarrando os frágeis pés da terra; esta, agora, adormecida sob o manto gélido de, vejam só, asfalto! Já há cerca de trezentos metros do chão, percebi que a colcha de retalhos com costuras tremeluzentes nem era mais tão uniforme como outrora, havia pequenos e grandes calombos nela. Chamam-se edifícios... Claro que ficam há uma certa distância da Travessa Sem Saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei os olhos e ouvi o badalar grave da matriz acima das nuvens. Era chegado o dia. Presenteei a lua com uma nova metáfora: feito copa de boda era ela que, pouco a pouco, perdia seu significado de lumiar, pois era inundada por sangue negro; e a Terra, agora, parecia em chamas. Vi os sete cavalos de vento, um de cada cor, rumando para baixo a violento trotar. E anjos a ralhar uns com os outros se desprendiam das barbas negras do universo, lançavam-se perfurando o som, as almas e o fedor dos ministros; ah, azougues de bocas abertas e dentes de prata, sedentos de mar... Famintos de homens!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cigarro de palha, então, apagou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-----&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Otávio Augusto Martinez&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Atibaia; São Paulo&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Primavera de 2007&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;* &lt;em&gt;Heaven in a Wild Flower&lt;/em&gt;, poema de Willian Blake.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agradeço a Rubens Marin Martinez pelo suporte e revisão &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;Copyright 2007Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-6842123374738125067?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/6842123374738125067/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=6842123374738125067&amp;isPopup=true' title='28 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/6842123374738125067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/6842123374738125067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/10/voyeur.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-8888921469296907953</id><published>2007-09-10T10:24:00.000-07:00</published><updated>2007-09-10T10:33:12.954-07:00</updated><title type='text'>Addio Pavarotti! Addio Paolla!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Na época de escola eu era um menino que vivia no mundo da lua, onde, por sinal, para mim, é até hoje o mundo mais perfeito para se viver, diga-se. Apesar de não ver gente morta como o garotinho estranho do filme &lt;strong&gt;O Sexto Sentido&lt;/strong&gt;, eu era soturno, calado, tinha uma postura completamente anti-social, condição que mantenho até hoje, de certa forma, não que tenha orgulho disso; ademais, tinha gostos e preferências atípicas para minha idade: dançava Kraftwerk &lt;em&gt;like no one's watching&lt;/em&gt;, tinha prazer em explorar a história da monarquia britânica (Henrique VIII era meu predileto) e meditava ao som de Debussy. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Logo chegou a adolescência e, com ela, a paixão pela ópera, e o pior é que ninguém me induziu a ouvir esse tipo de música! A ópera automaticamente tornou-se a maior expressão de minha dor existencial que era tão comum naquela época de mudanças e paixões aterradoras.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foi na adolescência que também conheci meu grande amor, Paolla. A garota era simples, uma descendente italiana, menina que com seus longos vestidos estampados com delicadas ramagens floridas trabalhava nas vinhas do pai abaixo de um sol escaldante o que, por fim, lhe acrescentava um tom brioso a tez extremamente branca. Ela era escandalosamente comum, falava tudo errado com um tom deliciosamente sensual, sempre gesticulando com vivacidade... Tinha o riso solto e pleno! Não entendia muito minha precocidade e minhas besteiras que denotavam pretensão intelectual, às vezes, eu até percebia que ela não conseguia engolir minhas incomuns preferências, mas, no entanto, sempre educadamente e com um sorriso encantador nos lábios se predispunha a aprender comigo ou, pelo menos, fingia aprender, dizendo: &lt;em&gt;"capisco"&lt;/em&gt; com aquela boquinha de pétalas rosadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando penso em ópera, logo me vem ela em mente, é algo indivisível... Mas não era qualquer ópera, não. Era a ópera cantada por &lt;em&gt;Il Tenore&lt;/em&gt; Luciano Pavarotti, igualmente apreciado por ela. Recordo-me que quando apenas tinha um amor platônico por ela, escrevi um bilhete (que nunca foi entregue) com a letra de &lt;em&gt;Nessun Dorma&lt;/em&gt;, de Puccini, o bilhete dizia assim: &lt;em&gt;“Nessun Dorma! Tu pure, o principesa, nella tua fredda stanza, guardi le stelle, che fremono d'amore e di speranza. Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà! No, no, sulla tua bocca lo dirò quando la luce splenderà! Ed il mio bacio scioglierà il silenzio che ti fa mia! Dilegua, o notte! Tramontate, stelle! All'alba vincerò!”&lt;/em&gt; Até hoje me emociono quando ouço a voz de Pavarotti cantando &lt;em&gt;“All'alba Vincerò!”&lt;/em&gt;, parece que ainda sinto o sabor do primeiro beijo que demos... &lt;em&gt;Dio&lt;/em&gt;!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando já estávamos juntos, mirando aqueles ternos olhos azuis que quase me faziam chorar de gratidão, sentia &lt;em&gt;il amico&lt;/em&gt; Pavarotti soprar em meus ouvidos me fazendo ter vontade de cantar aos quatro ventos a aria &lt;em&gt;Quanto è bella...&lt;/em&gt; : &lt;em&gt;"Quanto è bella, quanto è cara, più la vedo, più me piace."&lt;/em&gt; ou então a canção &lt;em&gt;Starai con me&lt;/em&gt;, que diz: &lt;em&gt;“Poso i miei occhi su di te, solo respiro questo incanto, frammento di passione che sussura como il vento. Il tuo sorriso como il mio di certo sa igannare il pianto. Affascinato sono io, miragio di bel canto”.&lt;/em&gt; Realmente, nosso sorriso só enganava o pranto, e este não tardou a chegar, o inesperado aconteceu... Nosso pequeno romance fora proibido por seu austero pai e, a partir de então, nunca mais vi minha "miragem lírica". Não me restou nada a não ser cantar &lt;em&gt;Ricordarte di me&lt;/em&gt;: &lt;em&gt;“La mia piccola rondine partì, senza lasciarmi un bacio, senza una addio partì. Non ti scordar di me, la mia vita è legata a te. Io te amo sempre più, nel sogno mio rimani tu. Non ti scordar di me”.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Separei-me de Paolla, mas meu amigo bonachão continuou iluminando minhas noites solitárias, continuou me ensinando sobre o amor com sua voz lancinante e precisa. Sabe, não me importa se ele tinha ou não presença cênica, se ele era ou não extravagante, populista e excêntrico, se seus concertos eram ou não pirotécnicos, se sua voz decaiu nos últimos anos, tudo, para mim, nessa figura antológica era maravilhoso. Tive a oportunidade única de ouvi-lo e vê-lo, acompanhado dos também brilhantes tenores e amigos Plácido Domingo e José Carreras sob a batuta soberba de Zubin Metha, em Los Angeles. Confesso que me arrepiei todo ao ouvi-lo cantar a mesma &lt;em&gt;Nessun Dorma&lt;/em&gt; e até &lt;em&gt;Aquarela do Brasil&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hoje, dia seis de Setembro de 2007, &lt;em&gt;mio fratello Pavarotti a morto&lt;/em&gt;. Quando, ainda ontem, fiquei sabendo que ele não estava bem, logo pressenti que o fim estava próximo, cheguei até a sonhar com a triste notícia de sua morte que, infelizmente, se confirmou. Mas, o mais curioso de tudo isso foi que, entristecido, hoje, fazendo compras num dos supermercados da cidade, de repente... Deparei-me com ela, a minha amada Paolla, anos após nossa separação... Estava bela como sempre, ou talvez mais ainda, agora que é uma mulher completa. O rostinho de formas retas e ainda sim delgadas entrevisto através dos cabelos amadeirados expressava uma face inabalável, altiva, entretanto seus olhos brilhavam em exasperada contenção e os lábios levemente caídos lhe acrescentavam uma leve nota elegíaca. Não conseguimos trocar nenhuma palavra, embora tenhamos nos encarado por um bom tempo. Percebi que nossos corpos tremiam escandalosamente e nossas faces haviam se empalidecido. Ao retornar para casa, emocionalmente exaurido, liguei o rádio do carro e, naquele momento, meus caros... Eu chorei com todas as forças da alma! Chorei por Pavarotti. Chorei por Paolla. Pois, como se fosse combinado, a voz do tenor emanou dos alto-falantes, dizendo: &lt;em&gt;“Un solo istante i palpiti del suo bel cor sentir! I miei sospir confondere per poco a suoi sospir! I palpiti, i palpiti sentir! Confondere i miei co' suoi sospir. Cielo, si può morir! ”&lt;/em&gt; Para minha surpresa tocava... &lt;em&gt;“Una Furtiva Lagrima”.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Bravo Tenore, bravissimo! &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-8888921469296907953?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/8888921469296907953/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=8888921469296907953&amp;isPopup=true' title='23 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/8888921469296907953'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/8888921469296907953'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/09/addio-pavarotti-addio-paolla.html' title='Addio Pavarotti! Addio Paolla!'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-3368337818172252027</id><published>2007-06-21T11:44:00.000-07:00</published><updated>2007-08-01T22:32:35.066-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Noctívaga&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A agulha tremelicou um pouquinho sobre a plataforma lustrosa do &lt;em&gt;long play&lt;/em&gt; até que o som rouco, depois do chiado, emanou dos alto falantes: &lt;em&gt;“Good Morning Heartache”&lt;/em&gt;. Era isso que Daniela precisava para entrar no &lt;em&gt;mood&lt;/em&gt;. Não demorou nada para que Seu Guimarães esmurrasse a parede: &lt;em&gt;“abaixa essa merda, vagabunda!”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Cortiço é assim mesmo”. &lt;/em&gt;– Disse Dna. Ofélia, a esposa. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sem se importar, Daniela senta-se no seu &lt;em&gt;bordoir&lt;/em&gt; e começa a maquiar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o balcão vermelho e desbotado, um anão passava um pano com álcool, quando gritou: &lt;em&gt;“acende o luminoso!”&lt;/em&gt; Em segundos... O som da eletricidade: &lt;em&gt;bzzz&lt;/em&gt;... Srs e Sras: o néon roxo começa a piscar na sua vigésima noite, do sexto mês, do décimo ano! E nele, as gloriosas palavras: &lt;em&gt;“come in to the cool”&lt;/em&gt;. As letras “o” de “come” e “t” de “the” já não acendem mais, mas pouco importa! Não é difícil imaginar que lá na Augusta, o nome do jazz bar, com simpáticos coqueirinhos na porta (para relembrar nossa latinidade), fora adaptado para o português de uma forma bem, digamos, intuitiva, mais apropriada e chula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pianista Eduardo de Oliveira, ou melhor, Duke, como gostava de ser chamado, pois afirmava que isso lhe emprestava um certo ar &lt;em&gt;yankee&lt;/em&gt;, estava em seu camarote mofado, sentado em sua poltrona toda rasgada de couro vinho em capitonê, com aquela cara de Adrien Brody desenxabido. Ajeitou a gravata borboleta, cuspiu nas mãos e alisou o cabelo, depois riu para o espelho, arreganhando aqueles dentes mais parecidos com grãos de feijões, colocou um chapéu panamá, e disse com a voz fanhosa: &lt;em&gt;“eu poderia... Tomar umas pílulas verdes...”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sirenes das fábricas, símbolos de nossa virilidade econômica; os sinos das igrejas que, de tão obscuras nessas horas cinzas e irrespiráveis mais nos levam a pensar no demônio do que em Deus; os berros dos moralistas daqueles programas policiais que, se não fosse a intrépida criminalidade vigente em nossa &lt;em&gt;polis&lt;/em&gt;, estariam passando fome e quiçá, roubando também! As vozes messiânicas dos pastores televisivos a convocar suas ovelhas; as vinhetas das instrutivas novelas anunciando a próxima traição; os tétricos comentaristas de futebol discutindo com o mesmo tom grave e solene que Anthony Eden discutia a guerra com Churchill. &lt;em&gt;“Mandamos homens para a zona de ataque e a defesa fica descoberta?”&lt;/em&gt;. Tudo isso, em uníssono, unido ao buzinar dos carros, ao ruído dos aviões, conclama, assim como o solitário &lt;em&gt;muezim&lt;/em&gt; do alto de um minarete no deserto, os pobres trabalhadores a irem para casa descansar o sono dos justos ao mesmo tempo em que conclama os ímpios... A viver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi no exato momento que um cachorro pulguento depositou na calçada um montinho de bosta e coçou a orelha esquerda que Marilyn levantou o braço da vitrola pousando-o sob o suporte, desligando-a; retocou o batom, escondeu a navalha na meia e abaixou o decote. Hesitou um pouco a atravessar a movimentada Rua da Mooca, onde, todo dia, tomava um táxi e seguia para o mesmo destino. A menina rica que tencionava pós graduar-se em filosofia e acabou se perdendo nas questões morais... Literalmente, jamais se acostumara com o ritmo frenético e desorganizado das ruas de São Paulo, essa cidade que, não importa qual seja o dia da semana, sempre terá cara de segunda-feira e voz de trompete com surdina; que, para ela, traz um exemplo concreto do que é uma sociedade vivendo a vanguarda putrefágica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ter crescido no Jardins, sentia-se maravilhada com esse lugar exótico chamado Mooca. Essa pequena província de língua italianada que sofre sérios problema com os plural, onde a proporção de pizzarias por metro quadrado é a maior do mundo. E tem mais: depois de ouvir o filho de Dna. Canô dizer que Rita Lee era a mais perfeita tradução de São Paulo, Marilyn passou a delicadamente chamar esse glorioso bairro de... &lt;em&gt;Little Bronx&lt;/em&gt;. A vidinha dela era mais tragável quando assim pensava. Perdoemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Trajando seu casaco de pele sintética já um tanto ruço e segurando um guarda-chuva que tinha a face de Madonna estampada, caminhava se equilibrando nas altas plataformas enquanto pisava em profundas poças no meio de todo esse férvido, hostil e bulímico caos. Parou num bar ensebado, onde, a primeiro momento, por incrível que pareça, não foi notada. Lá estava, com olhos atentos e maravilhados voltados para aquele monitor sagrado, parte de nossa exímia classe laboral, semi-analfabeta, os nossos adoráveis &lt;em&gt;cockneys&lt;/em&gt;. Pobres, porém limpinhos. Exalando o sabonete barato e o desodorante 90% etílico. O único que finalmente a notou foi um cheirosão sentado lá perto do caixa. A olhava como uma criança olha para o doce desejado. O brilho de seus olhos combinava perfeitamente com a aliança que ostentava na mão esquerda. Esbanjava aos quatro ventos uma imitação de &lt;em&gt;Polo&lt;/em&gt; cuja validade da fixação expira a cada cinco fungadas da sua amada e frutífera esposa que o espera ansiosamente lá no reduto dos bravos, conhecido como... Guaianazes. Marilyn, sempre indiferente (só tinha olhos para os novos ricos do Tatuapé), comia uma coxinha mortífera, regada com aquele líquido infernal, quase incolor, que convencionaram chamar de pimenta, quando então alguém que passava na frente daquele estabelecimento chamou-lhe muito a atenção. &lt;em&gt;“Não é a primeira vez que vejo andando por aí esse homem todo de preto, com a camisa abotoada até o colarinho. Parece um padre”&lt;/em&gt;. – Pensou enquanto dava a última dentada em sua pequena refeição... Proporcional ao que podia pagar, afinal tinha que economizar para, na volta da noitada, comprar o churro de roda que vende lá no Brás. Logo tomou o táxi e seguiu seu caminho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquela noite chuvosa, enquanto perpassava lentamente pela alça de saída da 23 de Maio e o taxista driblava os moto-boys, o vai e vem do pára-brisa parecia hipnotiza-la. Enxergava através da garoa intensa e sentia-se como se estivesse com os olhos rasos d’água, coisa que não acontecia há muito tempo. Vinham-lhe a mente, flashes de sua adolescência no Colégio &lt;em&gt;Sacre Coeur&lt;/em&gt;, com suas rígidas mestras, suas colegas (mais interessadas em aulas de boas maneiras e puericultura do que nas geografias e matemáticas lá ensinadas, diga-se, pois precisavam se preparar para seus &lt;em&gt;débuts&lt;/em&gt; na seleta sociedade paulistana). &lt;em&gt;“Tão hipócritas, essas menininhas...”&lt;/em&gt; – Pensava enquanto tais flashes de memória confundiam-se com os intermitentes e intensos lampejares das antenas, com o colorido dos semáforos, com as lanternas e faróis automotivos, que agora cambaleavam pelas duas pistas da mais paulista de todas as avenidas. Nisso, um mendigo trajando uma camisa do Corinthians, com as pernas apresentando feridas purulentas, bate na janela do táxi estendendo a mão, desviando-a de seus pensamentos. &lt;em&gt;“Vai a merda!”&lt;/em&gt; – Ela responde extremamente arisca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já no &lt;em&gt;club&lt;/em&gt;, as primeiras horas são marcadas pelo tédio, pelo torpor. Silêncio. Horas mortas. Existências fragmentadas. Almas mortas, cada uma delas, possuindo três, quatro, cinco, vidas... Igualmente mortas, num lugar morto. Silêncio. Até que a noite densa abre seus véus e então a fauna urbana com suas mais raras estirpes ressurge! Ao piano de bordas carcomidas, teclas amareladas: Duke com toda sua magreza, enfadado, tendo um cigarro amarrotado pendurado na boca, dedilhava &lt;em&gt;“Sophisticated Lady”&lt;/em&gt; pretendendo-se Ellington. Se havia algo mais &lt;em&gt;fake&lt;/em&gt; do que sua sonoridade naquele &lt;em&gt;club&lt;/em&gt;, que não chegava nem perto do &lt;em&gt;Cotton&lt;/em&gt;, claro, embora era assim que ele o encarava, era o &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt; que se pretendia &lt;em&gt;Grant’s&lt;/em&gt; suando deitado sobre o piano, gelando de levinho, vez ou outra, os seios de Marilyn que lá se derramava enquanto soltava beijinhos com sua boquinha acerejada pretendendo-se Monroe... que, na verdade, nunca foi Monroe, mas, sim, Norma Jean... É claro que não fazia isso por estar envolvida com a música, mas só para exibir as magras ancas que, mesmo estando longe de ser preferência nacional, tanto agradava aqueles cavalheiros de olhos afogueados, gostos duvidosos e bolsos furados. Todos eles, oriundos de &lt;em&gt;quatrocentões&lt;/em&gt;, embalados nas brumas golfadas de suas próprias bocas que exalavam o cheiro das ruas de &lt;em&gt;Assumpción&lt;/em&gt; (origem de seus cigarros).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabada a dança, Marilyn sentou-se, ajeitou os seios, acendeu um cigarro, e, antes que algum daqueles homens avançasse, desferiu aquele olhar &lt;em&gt;blasé&lt;/em&gt; para cada um deles. Mesmo assim, um dentre eles ousou sentar-se a seu lado, e, para sua surpresa... Era o homem vestido de preto que vira várias vezes vagando por aí, inclusive no começo daquela noite. Confusa, meneando a cabeça, ela pergunta: &lt;em&gt;“Por que? Por que me segue?”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Porque é assim que deve ser. É o destino”&lt;/em&gt;. – Ela soergue os beiços, meneia a cabeça novamente e franze a testa. Não está entendendo nada, nem a si mesma... Talvez por estar já bem alterada.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“E você? Por quê?”&lt;/em&gt; – Ele diz com tom intimidador.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Por quê o quê? Por que sou puta?”&lt;/em&gt; – O silencio impera por alguns segundos. Ela põe a mão na boca, o encara com desdém, e prossegue gesticulando abruptamente: &lt;em&gt;“Eu sou puta por puro diletantismo. Sou hedonista no grau mais elevado do termo. Sou viciada na noite, esta que guia nossas cabeças, como tochas bruxuleantes&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;pelas sendas de seu labirinto; nos indica cada esquina, onde as esperanças de prazer são renovadas. Porém, jamais nos indica a saída”&lt;/em&gt;. - Conclui dando uma tragada no cigarro ao mesmo tempo em que um garçom lhe oferece um &lt;em&gt;cuba libre&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Puxa. Você tem algo... de poético no falar”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Todos nós somos um pouco poeta, um pouco puta... E você, o que faz?”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Sou escritor”&lt;/em&gt;. - Diz ele gaguejando um pouco.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Veio aqui para buscar inspiração na minha miséria? Se você espera de mim um daqueles dramas já gastos, esquece.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Não. Tenho propósitos mais nobres, na verdade”&lt;/em&gt;. – Diz ele rindo timidamente.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Já sei. Você quer me comer!”&lt;/em&gt; – Diz ela sem rodeios. Ambos riem e, em seguida, novamente o silêncio impera. Cipós de fumaça descem de suas narinas. Volta seu olhar para os homens do balcão. Todos agora parecem zumbis olhando em sua direção. Ela pensa: &lt;em&gt;“São como personagens de uma Avalon nefária e, ainda sim, instigante. É melhor que seja assim. É melhor que estas figuras caricatas da noite apresentem-se ante mim como um quadro impressionista, com um toque noir...”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“O que você chama de noir em São Paulo, eu costumo chamar de insalubre, Daniela. Mas há poesia até no lodo. Não é?”&lt;/em&gt; – O homem vestido de preto sussurra em seu ouvido com uma voz rouca e profunda, causando-lhe arrepios e temor.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Puta que pariu, meu! Não fala assim comigo! O que você tá falando? Leu meu pensamento, é? Por que você me chamou de Daniela?”&lt;/em&gt;. – Disse Marilyn com a mão trêmula no peito enquanto o copo de &lt;em&gt;cuba libre&lt;/em&gt; espatifava no chão colorido fazendo assim um pequeno show pirotécnico.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Desculpe, srta... Marilyn. Não foi minha intenção”.&lt;br /&gt;“Quem te disse que meu nome é Daniela, caralho? Será que essa porra de bar não é mais seguro?”&lt;/em&gt; – Disse enquanto toda atabalhoada pegava o casaco de pele, a bolsa, e dirigia-se desesperada a saída. Ninguém a conteve, nem mesmo o anão, que durante a madrugada... Servia como segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, enquanto o lugar ainda recendia a cigarro barato, sexo, bebida e então alguns raios de sol envoltos numa nuvem de pó iluminavam as mesas vazias, um policial batendo na porta, acordou Eduardo, Duke... O dono do jazz bar, pedindo para que este o acompanhasse até o IML a fim de reconhecer um corpo de uma garota que havia sido encontrada morta numa esquina após uma luta de navalha por ter entrado, sem querer, num ponto de outro cafetão na região da Vila Madalena. Duke, desesperado, acordou seu namorado... O anão. E seguiram para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, o néon roxo não acendeu. Duke, sem brilhantina no cabelo, atacou &lt;em&gt;“St. James Infirmary Blues”&lt;/em&gt; ao piano com espantosa verdade enquanto todas aquelas figuras encontravam em algum lugar ermo e árido de suas almas algum motivo para chorar .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Dia seguinte. Dez horas da manhã...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assentado na borda de um dos mais altos mausoléus daquela necrópole da Consolação, ele, o homem vestido de preto, com as pernas balançando no ar, assiste o sepultamento de Daniela Carvalho Azevedo quando então alguém mansamente assenta-se a seu lado e, ostentando um sorriso sereno, pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Por quê?”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------00000------&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Otávio M Mártinezi&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Atibaia, São Paulo&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Outono de 2007&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;------00000------ &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este conto vem finalizar a "trilogia paulistana" que se iniciou exatamente há um ano atrás. As duas primeiras partes são: "&lt;strong&gt;Fragmentos&lt;/strong&gt;" e "&lt;strong&gt;Bom dia, srta. Hachmann&lt;/strong&gt;"que podem ser conferidas neste blog.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;------00000------ &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agradeço a:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rubens Marin Martinez pelo suporte e revisão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;_____________&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;__________________________________ &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Copyright 2007Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-3368337818172252027?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/3368337818172252027/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=3368337818172252027&amp;isPopup=true' title='31 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/3368337818172252027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/3368337818172252027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/06/noctvaga-agulha-tremelicou-um-pouquinho.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>31</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-7830300686397795852</id><published>2007-05-05T11:50:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T12:16:16.937-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Rapsódia&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desliguei o telefone, acendi um cigarro e... Uma sinfonia de Lully! Sim, se não me engano era a &lt;em&gt;quare fremuerunt&lt;/em&gt;, perfeita para uma noite de sexta-feira chuvosa. Gosto de pensar na idéia de raios impetuosos do rei sol cravando suas lanças de ouro no seio da terra de meu quintal. Só no meu, que se dane os dos outros! Ao fundo... Num &lt;em&gt;insight&lt;/em&gt;, vejo Piccadilly e seus carros “buzinantes”! &lt;em&gt;That’s better&lt;/em&gt;! Quanto a meu vizinho, afirmo que cometeu um grande erro: ceifou os galhos floridos de seu castanheiro. Lá ficavam eles escondidos, esquecidos, porém jamais abandonados pela natureza; invadiam meu quintal, erguiam-se impávidos nas tardes de inverno estampando no céu um mapa de veias e artérias contorcidas; mostrando sua glória nos dias de sol com suas flores coloridas que mais pareciam ter sido pintadas por Van Gogh; que tão lindamente contrastavam com o céu cinza destas aprazíveis manhãs nubladas de Atibaia... Com aqueles galhos tudo era mais aprazível. Vez ou outra se juntavam borboletas das mais variadas cores a dar piruetas ao compasso de minuetos delicados, inocentes, solapando o folhame; vinham também os pequenos beija-flores a colher o néctar que as flores deliberadamente cediam em seus cálices exóticos. Isso sem dizer das aprazíveis noites de verão que, por causa do aroma das flores, eram quase shakespearianas... Apesar de minha solidão. Quem tem flores como aquelas não precisa de companhia mesmo. Podem me chamar de misantropo! Resultado: de minha varanda, hoje posso ver tudo que se passa na casa dele, mesmo que não queira. Desagradável isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém batia a porta; como de costume, não atendi. Não sou dessas pessoas que atendem telefonemas, que abrem as portas, gosto mesmo que meu mundo seja inescrutável, lacrado hermeticamente. Temo que descubram o óbvio: o quão humano, demasiado humano sou. Dizem que ser assim confere a mim certa aura enigmática, isso seria até &lt;em&gt;cool&lt;/em&gt; se não me tornasse tão desconfiável. É isso! Nunca confie em quem não atende telefones ou em quem faz caretas esdrúxulas quando se vê obrigado a tanto. Sinto fome, já é tarde. Comer... Por que comer? Eu já me enjoei de fazer isso todos os dias. O que me incomoda na condição humana é justamente essa necessidade constante, estes hábitos imutáveis, instintivos. Queria ser um ser cósmico, amorfo, sem consciência, sem moral, algo que não precisasse se alimentar, se reproduzir, se organizar politicamente, trabalhar, escrever... Enfim, sem objetivos e necessidades. Se analisarmos, Alice é que está certa. Está na estrada agora, deve estar passando por... Jundiaí? Livre e ávida vislumbra a estrada como um espelho profundo e negro a refletir as sangrentas luzes automotivas em zigue zague, como mil pirilampos e &lt;em&gt;little fairies&lt;/em&gt; representando uma cena de "Sonhos de uma noite de Verão". Penso que a melhor forma para se morrer deve ser num acidente automotivo, de preferência a duzentos quilômetros por hora... Rápido e indolor! Mas há quem prefira a morte através de acidente aéreo. Pois é, nessa república de bananas, onde aviões ainda podem ser confundidos com míticos seres celestes, quem morre em acidente aéreo ganha uma estranha coroa de nobreza, como se fosse um &lt;em&gt;Ícaro&lt;/em&gt; pelo simples motivo de morrer no céu e, em alguns casos, carbonizado, ou então é considerado quase mártir da malvada evolução, do capitalismo. Essa é a nossa sociedade! A dos bolcheviques cibernéticos, a do indivíduo nulo... Onde os culpados são sempre vítimas e &lt;em&gt;vice-versa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é que bate à porta de alguém a esta hora da noite? Pedintes, ladrões? Eu sei que não ando com boa memória, mesmo sendo ainda tão novo; minha mãe dirá que isso se dá devido ao excesso de uso do computador, já meu pai colocaria a culpa em Kierkegaard, mas eu me lembro perfeitamente do dia em que Alessandra, trajando um shorts minúsculo, entrou em casa pedindo um copo d’água. Sabe, é necessário focalizar seu pensamento em algo sólido para não esquecer o momento... Alguém já disse isso anteriormente, não? Uhmm... Sim! Virginia Woolf, em... &lt;em&gt;The Mark on the Wall&lt;/em&gt;, mas não importa, a idéia se recicla através de minha boca. Essa é a praga da literatura moderna. Tudo que tinha que ser dito, já foi. Ora, até essa constatação é obsoleta! Imagino que os escritores do futuro escreverão algo mais ou menos assim: &lt;em&gt;“Res uo oãn res? Sie a oãtseuq. Oriferp so sorrohcac”&lt;/em&gt; (Ser ou não ser? Eis a questão. Prefiro os cachorros). Será o refluxo de consciência! E eu devo-lhes dizer que aquilo... O shorts de Alessandra! Ou melhor, as rombudas pernas que o preenchia, eram sólidas, e como! Ative-me a elas. E eu que pensava ser assexuado! É. Vi no catálogo gastronômico da cidade uma pizzaria que vendia pizza de mussarela de búfala com tomate seco, como sabem, isso é meio raro numa cidade interiorana. Penso eu que não há nada mais sem graça no mundo do que ser um tomate seco, seu sabor é furtivo, acessório. Já o que me incomoda com relação a mussarela é que os dedos ficam gordurosos. Lembro-me que sujei as páginas de &lt;em&gt;Ulysses&lt;/em&gt;... Joyce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que haverão de pensar então aqueles senhores que, no ano da graça de 2450, contemplarão atônitos este meu insolente relato? Assentados sobre os restolhos da modernidade e ardendo abaixo de um céu aberto certamente comentarão entre si: &lt;em&gt;“aquilo sim era vida! Ha, posso imaginar o quão divino era ouvir a sinfonia infernal dos carros numa manhã em Piccadilly”&lt;/em&gt; – Notem o termo “sinfonia”. Sinta a alma poética que os anacrônicos do futuro haverão de empregar a nossos dias. O passado, com sua carga natural de melancolia, sempre tingido em preto e branco ou, no máximo, em sépia, nos faz crer que a vida era mais aconchegante, mais bonitinha, porém, mais inglória. O presente nunca é satisfatório, o futuro não é nada além da continuação do agora, porém com agravantes, muito embora a esperança, essa senhora raquítica e acamada, nos diga o contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais suportando as pancadas continuas e já irascíveis em minha porta (a pele de madeira que nos separa do mundo), decidi abrir, mas primeiro olhei pelo vão, por onde o vento secava minha retina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, vejam só: era apenas o entregador de pizzas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------00000------&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Otávio M Mártinezi&lt;br /&gt;Outono de 2007&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;------00000------ &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;------00000------&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agradeço a:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rubens Marin Martinez pelo suporte e revisão &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Erni Eglisson pela trilha sonora, "&lt;em&gt;A Tale of Yore&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;__________________________________&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffcc;"&gt;© Copyright 2007&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-7830300686397795852?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/7830300686397795852/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=7830300686397795852&amp;isPopup=true' title='27 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/7830300686397795852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/7830300686397795852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/05/rapsdia.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-347749076749827022</id><published>2007-04-12T12:44:00.001-07:00</published><updated>2008-12-05T16:23:33.519-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Bom dia, Srta. Hachmann!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_BBGs-xl3RK8/Rh6BhUVgBaI/AAAAAAAAAC0/PkAS0glDeiM/s1600-h/P4110003.JPG"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;“Não. Eu não sou uma princesinha rimbaudiana de algum país europeu frio e chuvoso a viver meu ócio aristocrático, como sempre diz Giovana que, aliás, depois que se formou em letras a única coisa que tem feito é transformar e identificar a família e os amigos em personagens...”.&lt;/em&gt; Disse em pensamento Jéssica Hachmann, a judia, fitando-se fixamente no espelho enquanto media as dimensões de seu altivo nariz e uma lágrima lentamente contornava a cavidade negra e profunda a volta de um de seus olhos. Olhar marejado posto contra a própria imagem refletida; cotovelos apoiados na pia, mãos a sustentar o rosto exausto de modo a conferir-lhe formas grotescas; tinha os cabelos emaranhados, naturalmente ruivos e ressecados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ouvia-se apenas o ruído das gotas que vagarosamente pendiam da torneira e estouravam na banheira transbordante... A claridade já inundava o banheiro daquele apartamento em Higienópolis, revelando o sangue escorrido nos velhos azulejos brancos... No chão, uma carta de John Stevenson, um maestro em ascensão no &lt;em&gt;métier&lt;/em&gt; musical londrino, além de velho amigo da família, que a convidava para ser solista junto a &lt;em&gt;Royal Philarmonic&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ser ainda tão cedo, criancinhas brincavam lá fora, no pátio de uma escola ao lado; seus risos inocentes e agudos ecoaram e romperam o gotejar monofônico da torneira fazendo assim despertar Jéssica de sua profunda letargia. Desceu as calças do pijama que ostentava graciosos ursinhos estampados, examinou a genitália felpuda, igualmente ruiva, e fez xixi; limpou-se, levantou-se, enxugou as lágrimas, respirou profundamente e disse desabafando com seu ar teatral e levemente sarcástico de sempre: &lt;em&gt;“É chegado o momento de viver”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, o emprego que Dna. Ofélia havia lhe angariado não era dos melhores, todavia, lhe servia como passatempo, como terapia. As aulas de violino que ministrava em seu apartamento para fedelhos de classe média sem talento algum enfadaram-na, a reclusão a qual se acomodara permitiu que criasse certo limbo em sua mente. Passou a trabalhar na tabacaria de &lt;em&gt;Herr&lt;/em&gt; Jürgen numa galeria entre a Barão de Itapetininga e a Sete de Abril, um emprego nada condizente com sua classe social, com seu intelecto e habilidade artística.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por mais que tentasse esconder, a fim de inserir-se entre os pobres mortais, tinha evidentes modos de abastada, isso sem dizer o português impecável com um leve sotaque alemão. Jéssica era assim: uma menina que já nascera com cara de dama antiga (provavelmente mudaria muito pouco até chegar aos oitenta anos) e que tinha como destinação enfeitar a sala de algum banqueiro com seus traços clássicos esculpidos em seu rosto de mármore carrara. Rejeitou sua sina, preferiu um albergue em Praga, onde pintou seu cabelo de cor-de-rosa pela primeira vez depois de contemplar aquele pôr-do-sol único estando apoiada no beiral de um balcão no último andar de um edifício do séc. XVIII, herança arquitetônica do império austro-húngaro; lá também conheceu as drogas, a vodka e a solidão das noites frias, chegando até ser detida pela polícia por apresentar um comportamento agressivo aos bons costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jéssica já havia se curado. Poderia ir ao trabalho de carro, é verdade, mas queria sentir a vida pulsando, não somente a sua, mas a dos outros também. Escolheu ir de ônibus e metrô. Naquela manhã deveria passar pela Líbero Badaró a fim de ver o simpático tio Isaac, um relojoeiro que sempre sublimava suas más características. Certa vez, ainda quando criança, Jéssica roubou alguns cruzados novos do bolso do pai. O primeiro a saber do feito foi o tio que prontamente a elogiou aclamando-a como &lt;em&gt;“uma grande estrategista, uma larapia sagaz”&lt;/em&gt;, porém, quando o pai descobriu e a castigou, Isaac a consolou dizendo que era uma boa filha por aceitar a penitência a ela imposta. Não havia más qualidades para aquele homem de barba fina e castanha, havia bondade naqueles olhos, bondade que, quando refletida nos olhos de Jéssica, não passava de inútil hipocrisia. Sim – Às vezes ela era impiedosa com sua família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Optou desembarcar na estação São Bento do metrô...&lt;br /&gt;Quando as portas dos trens se fecharam e uma voz feminina anunciou nos alto falantes que uma mãe procurava seu filho que havia desaparecido ao desembarcar, tudo ficou vazio e em silêncio, restava apenas o guinchar dos trens, já um tanto distantes, vindo ecoar daquela boca negra do túnel. &lt;em&gt;“Estes são os murmúrios da metrópole”&lt;/em&gt;, pensou no exato momento em que, lá na outra extremidade da plataforma, saiu detrás de uma coluna uma cabecinha cor de chocolate. Ria, gargalhava! &lt;em&gt;“Este deve ser o menino que sumiu da mãe”&lt;/em&gt;, concluiu. Saiu correndo atrás dele, mas que nada! O moleque desapareceu nas escadarias e não mais fora visto por ninguém...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Uma mãe chorava enquanto ela, ao subir pelas escadas rolantes, recebia o beijo frio da brisa e da luz. Com aqueles profundos olhos azuis, mirou com ar de misericórdia o mundo diante de si. O rosto pálido, um tanto doentio, parecia fresco, exalava lavanda naquela manhã de outono; numa observação mais ousada e próxima era possível notar pequeninos veios azulados nos cantos das pálpebras, além de pequenas rugas; os cabelos esvoaçavam ao impulso da aragem... Um tanto poluída, claro, principalmente para quem está a poucos metros do Largo do Payçandú, onde os ônibus exalam seu negro e fétido fumo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dentre outros arranha-céus de uma São Paulo fria e cinza, notou o prédio onde fora o &lt;em&gt;BankBoston&lt;/em&gt;; lembrou-se de Pedro que um dia ali trabalhara. Pedro, aquele que sempre a acudia nos momentos mais difíceis. &lt;em&gt;“O que tem feito aquele espírito resmungão, intocável e imbatível? Onde está vivendo aquele perfeito dandy? Numa redoma de cristal em Cornuales ou seria no sul da França? Não sei. Aquela figura insuportavelmente adorável não escreve nem telefona; a última vez que me recordo ter falado com ele, estava todo esbaforido desembarcando no JFK. Disse que lançaria seu livro naquela semana numa livraria da 47° Avenida - não sei se lançou, não recebi a cópia prometida. Como chorei aquela noite! Que boba! Fiquei como morta estirada no sofá por não estar em companhia dele, bebi demais – talvez tenha sido uma garrafa inteira de Glenfiddich - e adormeci ao som de Lush Life, música que provavelmente ele estaria ouvindo, sozinho também, em some small dive in Manhattan. Uhm, sobre o que ele escrevia mesmo? Ele escrevia sobre nós provavelmente, sobre tudo que podia escrever, sobre tudo a respeito de seu mundinho rico e triste. Tanto se esforçava para descrever a metafísica daquele sabor gelado de um chikabom saboreado na infância numa tarde florida em alguma praça de Poços de Caldas; queria falar sobre o frio na barriga que sentia quando brincava de esconde-esconde com os primos nas noites de verão; queria falar do prazer ao ouvir os gritinhos de crianças pulando em poças d’água ou sobre o conforto, a ternura daquele abraço que me dera enquanto, em silêncio, vislumbrávamos o mar numa praia de Cannes naquela manhã fria e nublada. A felicidade estava lá perto...” –&lt;/em&gt; Jéssica, com os lábios trêmulos, abaixa a cabeça, apalpa a testa e, com as pontas dos dedos, contorna o nariz, respira profundamente...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando já restabelecida, percebe-se parada em frente a uma livraria. Vê na vitrine vários livros de capas vermelhas com letras douradas, e pensa:&lt;em&gt;“A palavra tem seu poder, mas há lugares, sentimentos e momentos por ela inescrutáveis e indescritíveis. É necessário viver para usufruir tudo isso com intensidade... e depois guardar na memória.&lt;/em&gt; - Um ônibus elétrico estalando nos fios suspensos sobre a rua passa a seu lado ostentando uma enorme propaganda da Coca-Cola, onde alguém, com uma sede magrebina, suga o líquido com tremenda voracidade; o cobrador, atrás daquele ensebado vidro, com um olhar cúpido, a mede dos pés a cabeça e lambe os beiços, o que a deixa, de certa forma, constrangida. Apesar do aspecto esmagriçado que, segundo ela, beirava ao espectral diáfano, sabia que em si havia algo de exótico, afetado, plácido. –&lt;em&gt; Enfim &lt;/em&gt;– voltou seus pensamentos novamente a Pedro – &lt;em&gt;Ele lutava incansavelmente para imprimir o sabor e o cheiro da vida em folhas de papel, era como se quisesse tocar o horizonte com as mãos, sentir-lhe os choquinhos elétricos e quentes, o frêmito, a dor de um pôr-do-sol. Justamente numa época onde a palavra já parece tão gasta, onde alguns que escrevem tentam reinventar a roda e acabam agredindo o bom senso. &lt;/em&gt;&lt;em&gt;Pedro, ah, Pedro!”&lt;/em&gt;... Dirige o olhar para ambos os frágeis pulsos, vendo as ataduras ainda manchadas que recebera naquela madrugada. Fechou os olhos com pesar e não pode deixar de ver a trágica cena (que mais uma vez se repetira) do sangue por todo o banheiro. Lembrou-se também, com certo rancor, das palavras do médico que, com aqueles lábios secos e roxos, lhe proferira um sermão estúpido, moralista... &lt;em&gt;"Nada profissional!"&lt;/em&gt; Caía também sobre seus cansados ombros o pesar da moral religiosa que tem como imperativo ético a vida. Aliás, há muito, srta. Hachmann se distanciara das sinagogas, e, por isso, se sentia penitenciada constantemente. Quanto mais ela agia de modo contrário aos preceitos que por anos a conduziram, quando então freqüentava a &lt;em&gt;Mekor Haim&lt;/em&gt;(3), mais dor sentia, uma dor de consciência, uma eterna convalescença sendo amargada num leito de culpa; entretanto, ao mesmo tempo, sabia o quanto o excesso de religiosidade embota os sentimentos, sentia-se aliviada por desse mal não sofrer. No fundo, sentia falta daquela segurança que o hábito religioso a conferia, questionava a validade de sua existência sem um Deus cultuado formalmente segundo sua fé inata, via-se desviada dos valores da família... Vivia na constante dúvida se amaria ou odiaria constituir uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jéssica agora caminhava pelas irregulares calçadas que davam frente para a agência central dos Correios, sentia-se só, mas, de certa forma... Segura. Contemplava a grande multidão em tumulto seguindo sua marcha, era como a corrente sanguínea que preenchia os veios da cidade e que fazia pulsar o coração do monstro de concreto; esbatiam-na; via a estranha coreografia de papéis sujos rodopiando pelo chão e estapeando as pernas das moças. Parou na esquina com a Av. São João, quedou-se lá por alguns instantes degustando aquele momento, vendo cada um em sua singular insignificância seguir seu caminho inexorável, em silêncio, rumo as suas próprias solidões. Sentia os mais variados odores que se encontravam e se misturavam. E, ao mesmo tempo em que execrava, amava tudo aquilo que tocava seus sentidos naquele momento. Amava e odiava a vida. Amava e odiava aquele espírito metropolitano, cosmopolita terceiromundista.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Avistou de longe Isaac na porta da relojoaria, como o velho &lt;em&gt;Shylock &lt;/em&gt;abandonado; coçava a barba distraidamente; correu em direção a ele e o abraçou com tamanho carinho, ao que ele reagiu todo atabalhoado com o chapéu caindo da cabeça e com os &lt;em&gt;peiots&lt;/em&gt; balançando: &lt;em&gt;“não tenho dinheiro!”&lt;/em&gt;, em seguida, olhou-a interrogativamente, e disse rindo sem graça: &lt;em&gt;“ah, é você, é? Quase me matou de susto, Jéssica!”&lt;/em&gt;. Logo notou que ele não havia escovado os dentes, mas trajava roupas limpas. Na verdade, não tinham muito que conversar, apenas combinaram algo acerca do &lt;em&gt;Pessach&lt;/em&gt; e falaram um pouco sobre o novo emprego dela na galeria; todavia, saciavam-se apenas em ver-se, ficavam segundos, e até minutos, se fitando e sorrindo timidamente... Logo se despediram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isaac jamais aceitara a idéia de uma mulher tão jovem e bela morar sozinha, sempre a achava apática, cada vez mais magra e recomendava para que ela seguisse a &lt;em&gt;Kashrut. “Você devia vir morar com a gente”&lt;/em&gt;, era o que ele sempre falava, mas, tal idéia não era nada atrativa para ela: só de pensar na tia Sarah, já sentia náuseas; era desse tipo de mulher que parece ter demônios nas cavidades do sorriso, que acaricia apunhalando; com aquele rosto barbado e grotesco onde se desenhavam as mais ridículas expressões. Sempre sentada em sua cadeira, toda empoada, pronta para endereçar a próxima maledicência. Apesar de tudo, Jéssica não tinha tantos motivos para rejeitar tanto aquela mísera criatura... mas a rejeitava, e muito! Já quanto ao rosto do tio, a sensação era totalmente diferente, lá ela podia ver a imagem de Salomão, seu pai, homem correto, distinto, de olhar inalcançável que partira tão cedo. Diante daqueles olhos amendoados do tio, impossível era não se ver ainda como aquela garotinha de apenas nove anos que era um espanto, uma promissora violinista; ou como aquela bonequinha de porcelana sentada sobre almofadas, trajando um vestidinho branco em musselina, sapatinhos de verniz adornando os pezinhos, sendo maquilada num dos camarins do &lt;em&gt;Musikverein&lt;/em&gt;, em Viena, enquanto, só de brincadeirinha, tocava em &lt;em&gt;pizzicatto&lt;/em&gt; um “parabéns a você” no violino (presente caríssimo do pai, diga-se), quando então alguém entregara um bilhete a sua mãe, onde constava a informação que o avião do mesmo havia se desintegrado num terrível acidente, logo após ter decolado em Orli, na cidade luz. Desde então, seu mundinho ruiu. Sua carreira artística, também. Já Isaac vislumbrava em Jéssica, a menina Ruth, filha natimorta, ou seria sua &lt;em&gt;mammy&lt;/em&gt; que desapareceu durante a guerra? Grande era a decepção daquele homem que perdera tudo na vida em investimentos malogrados e em agiotagem, menos a fé em descansar em paz... Em sair desse&lt;em&gt; Egito&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a visita ao tio - passava pelo prédio da Prefeitura, quando olhou para o alto - &lt;em&gt;“Bem que eu queria viver num prédio com um jardim suspenso na cobertura, com viveiros de pássaros, com palmeiras, chefleras e azaléias com flores vermelhas, brancas &lt;/em&gt;(perfeitas para as noites de luar)&lt;em&gt; desfraldadas aqui e ali, nos galhos flexionados sobre a aléia... Tudo isso no meio de São Paulo e com vista para o Anhagabaú! Uhm, parece-me que pertenceu aos Matarazzo... Impérios familiares...”&lt;/em&gt;. Pensava se aproximando do edifício enquanto, mais uma vez, dava-se por conta de que não tinha uma família, mas seu império permanecia (uma herança milionária advinda da venda das industrias do pai), e ela o governava como uma princesa solitária (começava a dar créditos a Giovana). Não tinha primos; a avó, com quem vivera boa parte de sua infância e adolescência, morrera recentemente; tinha apenas um tio, Isaac, (a tia não contava)... A mãe? A mãe havia desaparecido sem deixar vestígios logo após a morte do pai! Tamanho foi seu ódio ao saber que um testamento fora deixado por ele, onde constava que boa parte de seus bens seriam destinados a filha, exceto o que era de direto dela. É fato que nunca tiveram um casamento harmonioso, até sua relação com Jéssica era fria, incomum entre mãe e filha. &lt;em&gt;“Nem visitando a Mikvá todos os meses conseguiu trazer uma atmosfera de santidade e paz para dentro de casa.”&lt;/em&gt; Concluía Srta. Hachmann que agora sentia-se um tanto orgulhosa, pois, mesmo sendo órfã e passando por tantas adversidades, sobrevivera... Mas, certamente, carregava tudo isso em seu olhar. Todavia, não gostava de pensar na mãe, tentou se distrair pensando no novo trabalho e nas pessoas que lá freqüentavam... Todos tão excêntricos! Principalmente Oleg, um rapaz calvo de rosto angustiado e de fala enrolada que vendia artefatos militares que, segundo ele, pertenceram ao Exército Vermelho da antiga União Soviética. Numa dessas manhãs de calor insuportável, quando o sol parece queimar o senso de civilidade dos povos que vivem abaixo da linha do Equador, Jéssica, ao entrar na tabacaria, riu ao ver Oleg portando na cabeça um &lt;em&gt;Ushanka&lt;/em&gt; e protegendo a cara com uma máscara de gás; logo o russo lhe saudou euforicamente: &lt;em&gt;“dobroye utro!”&lt;/em&gt;, ao que ela respondeu com voz manhosa: &lt;em&gt;“gutte morgen, Oleg”.&lt;/em&gt; &lt;em&gt;“Era o que me faltava: uma judia alemã e um bolchevique maluco... Não se ofenda, Fraulein Hachmann. É brincadeira.”&lt;/em&gt;, interviu rindo &lt;em&gt;Herr&lt;/em&gt; Jürgen. – Mal acabou de dizer isso, Oleg desmaiou, virou os olhos, começou a convulsionar e espumar pela boca, afogava-se na máscara de gás, esfregava a ushanka no imundo chão... Jéssica ficou petrificada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Há algo de absurdo e macabro nessas decadentes galerias comerciais que cortam o centro da cidade”&lt;/em&gt;, pensou Jéssica quando o verde efusivo do farol de pedestres refletiu em suas retinas - após ter atravessado o Viaduto do Chá. Olhou para trás, contra o fluxo de pessoas que atravessavam a Rua Xavier de Toledo, viu uma árvore de tronco límbico, nervurado, cujas folhagens se metamorfoseavam em cores outonais que iam do amarelo vivo ao palha mais insípido; dentre estas, era possível ver fragmentos do céu onde estampava-se um sol borrado entre as nuvens, dispensando-lhe um raio a tocar-lhe o coração, o peito gélido, depositando lá uma fagulha de vida. Sentia paz agora, ameaçou até sorrir; manteve-se ali na esquina; da cimeira da mesma árvore notou que provinha o estranho e agitado pipilar de pardais; lentamente voltou seu olhar adiante e avistou... quem mais senão &lt;em&gt;Herr&lt;/em&gt; Jürgen do outro lado da rua, tendo o &lt;em&gt;Teatro Municipal&lt;/em&gt; ao fundo?! Lá estava ele como uma estátua erguida a meio fio na Praça Ramos de Azevedo, com seu chapéu atarracado, as faces rosadas, os óculos de aros redondos e dourados, o mesmo terno marrom de sempre, o colete, o &lt;em&gt;Cartier&lt;/em&gt; no bolso, o cachimbo &lt;em&gt;Dunhill&lt;/em&gt;. Jéssica imaginou-o quando moço, com seu porte atlético, um nazista inveterado, cheio de ímpetos incontroláveis, cheio de amor a sua espécie, vivendo uma vida abismal, ansiando desesperadamente o sentimento impossível quer fosse com mulheres, quer fosse na política; comendo almas e sentimentos como um animal bulímico... Tais pensamentos envolveram-na numa repentina conturbação hormonal que se misturava a um inexplicável e morno ódio, entendia que tal sentimento tivesse origem talvez em reminiscências de rusgas históricas. &lt;em&gt;“Herança psicológica, inconsciente coletivo? Não. Não sei se dou mais crédito a Jung ou ás previsões do horóscopo".&lt;/em&gt; Perdida em pensamentos inúteis, repentinamente sentiu um delicioso aroma de maçã vindo de sua esquerda: &lt;em&gt;“ora, uma gestante comendo um strudel de maçã a essa hora da manhã! Que delícia! Que delícia... estar grávida! Mas como? Eu, com essa vida?”&lt;/em&gt;, meneava a cabeça... Dirigiu o olhar para &lt;em&gt;Herr &lt;/em&gt;Jürgen novamente, mas ao fixar-se nele, sentiu pena: &lt;em&gt;“pobre homem, envelheceu na busca... Mas tudo isso lhe deu o direito de acrescentar-se um tom grave ao espírito... Todo velho fumando um cachimbo seja numa biblioteca vitoriana ou na porta de um casebre no nordeste do Brasil é, invariavelmente, o mais valioso dos volumes de filosofia. Em seus rostos, dizem, tem estampado o mapa do mundo: as rugas como erosões, as orelhas peludas e pantanosas onde habitam sabe Deus que criaturas e os olhos vidrentos, desérticos...”.&lt;/em&gt; Era exatamente assim o olhar que &lt;em&gt;Herr&lt;/em&gt; Jürgen dirigia a ela naquele momento. Ela sorriu, acenou timidamente com os longos dedos; ele permaneceu olhando, sem titubear... Alguns segundos se passaram, e nada... Depois de mais uma longa pausa, ele solta um grito seco como uma estocada, levantando o braço direito: &lt;em&gt;“Bom dia, srta. Hachmann!”&lt;/em&gt;. O vermelho do farol de pedestres cintilou em seus óculos e então deu o primeiro passo adiante, seguiu solenemente. Toda a algazarra dos ambulantes foi gradativamente esmaecendo. Era possível ouvir as solas de seus sapatos tocando o solo. Um oficial da Guarda Metropolitana, postado nas proximidades, bradou a todos pulmões, seu bigode de exageradas proporções parecia saltar-lhe da face. Jéssica estatelou os olhos, arqueou as narinas, comprimiu os lábios e cobriu o rosto com as mãos... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os pássaros saíram da cimeira da árvore em aborrascada revoada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A judia ajoelhou-se no asfalto, seu rosto transfigurou-se, não chorava, não gritava, apenas gemia e flexionava seu tronco para frente e para trás, como se reverenciasse aquela estranha figura estendida no leito das ruas coroada com o próprio sangue que agora refletia um sol pleno e dourado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte:&lt;br /&gt;Fazendo uso de seu mimetismo natural, pegou o telefone e ligou para John Stevenson, aceitando seu convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Agora, sim, é chegado o momento de viver!”&lt;/em&gt; – Disse Jéssica Hachmann sorrindo após desligar o telefone. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;------000000------&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Otto Martinez &lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Outono de 2007&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;------00000-------&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Para Hannah Herman, a judia a me olhar com olhar misericordioso.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-347749076749827022?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/347749076749827022/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=347749076749827022&amp;isPopup=true' title='30 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/347749076749827022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/347749076749827022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/04/bom-dia-srta-jssica-allen_12.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-117045144130531080</id><published>2007-02-02T13:07:00.000-08:00</published><updated>2008-12-05T16:30:33.668-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Calda de Açúcar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após a visita de Dr. Jenkins e do delicado chá de jasmim, tudo muda, o silêncio ensurdece. Ao retirar-se, todas juram que a cauda de seu jaleco torna-se um cortejo de anjos prematuros envolvidos em baba, ou seria calda de açúcar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É justamente nesse momento, quando o sol se põe e então sua luminosidade infernal estoura pelos vidros baços da ala leste de St. Pancras, que se revela alguma verdade sobre cada uma delas. Ao caminhar pelos corredores de brancura cirúrgica, as faces são divididas: a metade oriental é avermelhada, e a ocidental, jaz em trevas; essa hora dá às ilustres transeuntes da ala psiquiátrica uma certa verdade, um brio, uma aura mística, as coloca no mundo exatamente a elas devido. O Surreal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espanta-me, por exemplo, o caso de &lt;em&gt;Mss.&lt;/em&gt; Huntington e suas companheiras de cela. Lá fica ela, a expelir involuntariamente um filete de baba pelo canto da boca, vivendo um eterno desvão na história, com aquele brilho de vidro nos olhos estatelados a espelhar tudo ao redor, sentada à beira da janela, com a cabeça pendida e um bloco de notas quase em branco na mão, como se fosse personagem de um quadro de Hopper; espasmos lhe ocorrem ao fim do dia, seguem-se os gritos grotescos, porém, Dr. Jenkins, preciso e frio, como sempre, lhe devolve o silêncio como dádiva. Santo Homem aquele, e nem tem espada, nem nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Divide os aposentos com &lt;em&gt;Mss.&lt;/em&gt; Huntington, a bela jovem Rosamond que, se não fosse a tendência à auto-extirpação de órgãos, encantaria qualquer homem do mundo com seus traços delicados, gélidos e, principalmente, pelo fato de já não possuir uma língua na cavidade bucal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elizabeth é a terceira. Sempre a sorrir. Relata em longas missivas os substratos de sua experiência de imersão num mundo gasoso, dado o excesso de sinestesias que vive, tanto as da psique, como as que literalmente materializa... A pirocinese da moça faria o queixo de Rimbaud cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite cai, as três deitadas sob seus leitos alvos mantêm-se olhando para o teto. Rosamond pensa na velha sem adjetivos; a velha... A velha quase não pensa. &lt;em&gt;“Uhm, faltam para ela substantivos e adjetivos que enchem de solenidade e rococós aquilo que é vazio e prosaico por natureza. Prefiro aquelas palavras simples, cotidianas, sem apelos... Receitas de bolo com calda de açúcar! Nada mais. Nada de lirismo, nada de retórica, nada de encantos literários tão efêmeros como os de Elizabeth. Tudo isso é uma grande demagogia. &lt;/em&gt; – Pensa Rosamond. Já Elizabeth... A essas alturas, mesmo sem dormir, sonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas manhãs, as duas moças passam por &lt;em&gt;Mss.&lt;/em&gt; Huntington, e em seus olhos se vêem refletidas; e com elas, o mundo. Naqueles olhos matutinos sempre há uma inquietação que se avulta vagarosamente com o passar das horas do dia, o mesmo acontece com as outras: Rosamond passa a sentir a necessidade incontrolável de reduzir-se. A ladeira rumo a lugar-nenhum é seu caminho, alcançar o grau zero é imperativo ético de sua estética para tudo. Os sonhos de Elizabeth tornam-se pesadelos, o orgasmo incendiário se torna iminente e o desespero a domina. &lt;em&gt;Mss.&lt;/em&gt; Huntington, já sinalizando alguns espasmos, passa a emitir grunhidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O clamor constante de ondulação hipnótica torna-se um mantra; gemidos, como miados fracos, indefesos, desalentados e aterrorizados... Gemidos... Miados, chorosos... Indefesas mulheres... Aterrorizados gemidos... Mulheres chorosas... Indefesas... Miados... Desalentadas lágrimas... Até, vertiginosamente alcançar os berros grotescos de &lt;em&gt;Mss.&lt;/em&gt; Huntington...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela lateral, ouve-se o salto do sapato tocando o solo e emitindo seu som surdo, seguido pelo atrito da sola que agora parece estilhaça-lo vagarosamente. Numa cadência continua, porém espaçada. É a marcha que antecede o epílogo de um dia na vida destas mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dr. Jenkins, fabiano por excelência, com um ar cínico, diz se aproximando: &lt;em&gt;“É coisa de poeta babão esse papo de que, na loucura, achega-se a verdade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, a paz sintética volta a reinar nas paredes brancas e nas faces parcialmente avermelhadas. Ouve-se Elizabeth suspirar profundamente, além do tilintar das xícaras, já ao longe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a visita de Dr. Jenkins e do delicado chá de jasmim, tudo muda, o silêncio ensurdece. Ao retirar-se, todas juram que a cauda de seu jaleco torna-se um cortejo de anjos prematuros envolvidos em baba... Ou seria calda de açúcar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;------000000------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Otto Martínez&lt;br /&gt;Verão de 2007&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;------000000------ &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2007&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-117045144130531080?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/117045144130531080/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=117045144130531080&amp;isPopup=true' title='53 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/117045144130531080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/117045144130531080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2007/02/calda-de-acar.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>53</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-116686794532144887</id><published>2006-12-23T01:56:00.000-08:00</published><updated>2007-05-06T18:40:04.810-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Concerto para Mariana e Orquestra em (lua) Maior&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/5962/1015/1600/326964/cezanne13.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/5962/1015/320/342699/cezanne13.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Paul Cézanne. Girl at the Piano (Overture to Tannhäuser). Portrait of the Artist's Sister and Mother. c. 1868-69. Oil on canvas. The Hermitage, St. Petersburg, Russia.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Itabira,&lt;br /&gt;Minas Gerais - MG,&lt;br /&gt;Dezembro, 1926.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I- Allegro Maestoso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO-------&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Apesar das vestimentas rústicas e simplórias, Mariana era uma dessas meninas de aparência singela e amável; uma senhorinha muito educada, de poucas palavras e de finas maneiras, predicados que possivelmente tenham sido herdados da austera educação do General Osvaldo, seu pai. Seu brio, seu sorrir, seu caminhar despojado, sua inocência e benevolência com os humildes, elevava os ânimos onde quer que ela estivesse; quer fosse na missa, quer fosse nas ruas e praças de Itabira, sua cidade natal. E por falar em missas, Mariana era uma menina de fé. Passava horas na igreja a ouvir um dos sacerdotes a tocar obras sacras no órgão de tubos, e naquele velejar sonoro, ia até o céu, conversava com Deus, e voltava. E foi neste ambiente cristão humanista e, ao mesmo tempo artístico, que a menina foi crescendo em estatura, intelecto e formosura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda em sua tenra idade, motivada pela família e pelo Vigário, deu-se a freqüentar aulas de piano de Dna. Veridiana, e sua desenvoltura no dedilhar não tardou a espantar a velha senhora que a ensinava com devoção e disciplina. Logo, a senhorinha estaria a promover saraus encantadores nos salões da cidade durante as noites de verão. E, obviamente, como dita a lei da natureza humana, os senhorzinhos disputavam a tapa quem ajudaria Mariana a carregar as partituras de volta para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre as tantas dezenas de moçoilas que estudavam nas escolas ginasiais a sua época, ela tinha algo que nenhuma das outras tinham: amor pelo conhecimento, em especial, pelos estudos de língua portuguesa e história, enquanto as outras eram afeitas aos namoricos e aos afazeres domésticos. Há inclusive quem diga que ela, em inúmeras ocasiões, humildemente, fazendo uso de sua erudição precoce, colocou os mais graduados mestres de história da cidade em situações de desespero, pois ela estava, indubitavelmente, além deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana era arte em essência. Ela enxergava uma porta diante de si, via arte; corria alegremente pelos campos e achava aquilo a mais pura efervescência... da arte; sentir-se viva... era arte! (...) sua própria pulsação, para ela, era uma manifestação artística. Mas uma das coisas que mais a fascinava mesmo era o que ela chamava de "a arte da lua". A lua com toda sua mística, força e romantismo, enchia a alma da menina de sonhos e encantos, e não raras vezes ela tocava "Claire de Lune" com as janelas abertas durante as noites de céu límpido... Seus dedinhos branquinhos a percorrerem o teclado, formando uma espécie de unicidade entre instrumento e instrumentista, um único corpo... sua face no vigor primaveril da vida, iluminada apenas pelo clarão da lua refletido em seus olhos verdes(...) Ah! Quem pudesse contemplar Mariana nestas noites! Igual espetáculo de grandiosa beleza não mais contemplaria sobre a face da Terra! Isso quando não lhe corriam subitamente lágrimas cristalinas, dando mais brilho à sua face delicada; era como um espetáculo elégico e pirotécnico ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a expressão artística era uma necessidade vital para Mariana, um dia ela descobriu outra forma para expressar-se além da música: a poesia; passou então a fazer experimentos, mas tratavam-se de experimentos poéticos totalmente secretos, pois, como o leitor já deve imaginar, Mariana era uma mineirinha extremamente tímida e cheia de segredos... Mas um dia a sorte lhe faltou, e por acidente, seus escritos, que eram segredados apenas a seu diário, foram parar nas mãos de seu temido pai. Ao saber do fato, até a escápula da pobre senhorinha tremeu. Seu pai descobríra seus mais íntimos segredos! Naquela mesma noite, Gen. Osvaldo não tardou a lançar o convite formal para que ela fosse vê-lo em seu gabinete, às vinte horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;-------OOOOOO-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II- Adagio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO-------&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegada a hora proposta para o fatídico encontro, lá foi ela, como vai um cordeiro ao matadouro, rangendo os dentes e preparando o costado para umas boas cintadas. Bateu na porta, e seu pai abriu. Ela já entrou cabisbaixa e chorando no recinto, implorando misericórdia. O pai riu com gosto ao ver a humilhação da moça, e disse:&lt;br /&gt;"Sente-se cá, minha filha" apontando para a cadeira a frente; ela com ar de estranheza por não ter apanhado logo de cara, sentou-se. O pai ficou em silêncio por alguns instantes, permaneceu olhando para a mesa como quem procurava as primeiras palavras para um discurso. Pigarreou, e começou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Minha querida filha, já não te basta a arte da música, pelo que percebo; sinto que tua alma é grande demais para pouca arte, não que a arte da música seja pequena, longe disso! Mas tua alma é maior que ela". A jovem permanecia ouvindo atentamente o pai, sem entender bem ao certo onde daria aquele monólogo. Ele prosseguiu: "Eu me pergunto: quem te ensinou a ser tão humana e sensível? Sim - eu compreendo que as mulheres são muito sensíveis, mas tu és mais que sensível, tua alma é angelical. Não pode ser deste mundo! E teu brilho? Teu brilho é intenso como o da lua que nos alumia rompendo as cortinas neste momento". Mariana, interrompendo o discurso, inclinou o corpo para ver a lua através da janela e, de fato, a lua brilhava como nunca. O pai seguiu: "Eu, em nome da família, da moral cristã e da pátria, sempre fui um homem de severos tratos, pois, para tornar perpétuos estes valores no seio de nosso triunvirato: eu, tu e tua mãe; assim fez-se necessário; tu bem sabes, minha querida filha, valores morais necessitam de certa aridez para serem consagrados nos corações humanos". O pai parou por um instante, respirou profundamente, demorou a retomar o monólogo, e quando retomou, seus olhos estavam marejados, Mariana notou que seu timbre de voz havia embargado: "Hoje, olho para ti: a única flor que plantei na vida, a qual fora regada, muitas vezes à vinagre... E percebo que, do venenoso fel... Emanou mel. Pensei que com meus maus tratos, teu coração viria a ser amargo e insensível, mas não. Sempre te ouvi a tocar sonatas de Schumann, e percebia tua emoção; sim, eu sabia que havia algo de muito profundo no simples toque de teus dedos, mas eu, cravado em minha rigidez, não demonstrava minha comoção, e além disso, não podia entender em verdade por que emocionavas-te tanto(...) Hoje, por meio de tuas palavras escritas neste diário, eu entendi todas aquelas tuas emoções ao tocar, ou pelo menos, parte delas, talvez pelo fato de a poesia ser mais direta do que a música... Talvez (...) Admito que nunca li palavras tão belas em toda minha vida, e me orgulhei ao ver que era tua a letra que as escrevia. Admito também que meu coração enfureceu-se de ciúme, mas logo se abrandou ao ver que minha pequena filha já sofria males de amores intensos e desilusões catastróficas. Mal sabia eu que minha filha chorava escondida, e que ainda tão jovem, em profundo amargor, colocava a própria existência em questão, admitindo que, sem amor, não há vida... O amor rege o universo. Onde aprendeste isto, minha filha?" A senhorinha ergueu os ombros, e disse quase sem voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não sei. Descobri sozinha". O pai voltou-se a ela, e disse:&lt;br /&gt;"Aprendo contigo! Ora, vedes, minha menina? Eu, aos olhos dos homens, aparento-me tão ríspido, e no fundo de minh´alma, sei-me tão sensível. Diga-me, quantas vezes me vistes a chorar?".&lt;br /&gt;"Nunca, papai".&lt;br /&gt;"Pois então, assim como tu nunca imaginaste que teu pai chorava, eu também não imaginava que minha filha, a qual ilumina o mundo com sua música e com seu sorriso, que parecia transbordar alegria, também sofria como gente grande e se derretia em letras. Eu escondo minha sensibilidade, para não dizer, fragilidade, atrás de uma falsa empáfia; tu escondes tua tristeza e sonhos melancólicos atrás de uma alegria ilusória. Será que enganamos o mundo ou a nós mesmos?".&lt;br /&gt;"Ambos, papai... Ambos". Respondeu a filha, e riram-se suavemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;-------OOOOOO-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III- Rondó Capriccioso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Já em pé, o pai comentou: "A propósito, minha filha, espero que não te zangues, mas, nesta tarde, estava eu a ler seus poemas, sentado em um banco no Largo do Batistinha, quando um cavalheiro se achegou a meu lado, sabe... Dizem que ele é poeta; eu duvido muito, pois ele parece não ter tino para tal coisa, só sei que ele é farmacêutico, mas por vanidade decidi mostrar-lhe seus escritos, e esperei por ver a reação do suposto literato... Ha! Queria que vistes! Os olhos do homem saltaram como molas, e com toda espontaneidade, afirmou que tu és uma grande poetisa! Uma revelação! Enchi-me de orgulho por ti." Mariana, já um tanto enfurecida por ter tido sua privacidade violada, balançava impacientemente a cadeira e tentava equilibrá-la sob os dois pés traseiros, quando replicou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Então o próximo passo será publicar meu diário pessoal no jornal da cidade?". O pai riu mais uma vez com o sarcasmo da jovem, (e Mariana persistia em equilibrar a cadeira sob os dois pés traseiros). "Mas, diga-me, quem era o cavalheiro a quem mostraste meus poemas, pai?". O pai, sem fazer muito caso, respondeu de rastro, olhando para a lua esplendorosa:&lt;br /&gt;"- Um homem, minha filha... Um homem chamado Carlos"... Ele virou-se, coçou a testa, e num esforço de memória, disse:- "Sim! Carlos... Carlos Drummond de Andrade era seu nome, minha filha!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Mariana caiu da cadeira... &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Para minha querida amiga Aline Rocha - A eterna Mariana&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-------OOOOOO------- &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;__________________________________&lt;br /&gt;Obs. Os personagens deste conto são meramente fictícios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-116686794532144887?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/116686794532144887/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=116686794532144887&amp;isPopup=true' title='23 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116686794532144887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116686794532144887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/12/concerto-para-mariana-e-orquestra-em.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-116394329533187911</id><published>2006-11-19T05:14:00.001-08:00</published><updated>2006-11-30T16:27:06.486-08:00</updated><title type='text'>Aquarell</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Aquarell &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/fff.0.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/fff.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/fff.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;Die Zeit schreitet fort - Inga Schnekenburger&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Com sons, compor palavras;&lt;br /&gt;Com palavras, imagens;&lt;br /&gt;Com imagens, a vida;&lt;br /&gt;Com a vida, imitar a arte;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Otávio Augusto, Le Carroussel&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre-se uma fresta na cortina: emerge uma pequena face assustada e emoldurada pelo quadrilátero da janela florida; a luminosidade nebulosa, quase radioativa, fere as retinas e toma perpendicularmente de assalto o inanimado quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na imagem horizontal, o céu plúmbeo se funde ao oceano. Os olhos semicerrados não se importam com o mar que marcha um marchar quase estático, denso e repetitivo, rumando obediente em direção a terra, e em seu caminho sendo penitenciado pelas gotas afiadas da tempestade diagonal, constante e cansativa que lhe fere a superfície, até arrebentar-se nas negras rochas verticais... Das negras paredes de Cornuales, quando então restam gotículas a bailar em espirais pelo ar até serem tragadas pela volúpia do vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A face recostada sobre a fina película de vidro que estampa de seu lado externo as “bolhas da chuva”, sente agora o gelo arder as sardas do nariz, faz-se então notória a cálida e sôfrega respiração a formar figuras concêntricas de névoa oscilando no vidro frio... Como uma criança, aponta, sem poder tocar, embora almeje, para cada uma daquelas bolhas de chuva, para cada um daqueles micro-universos, e assim passa a divagar sobre a efemeridade do brilho que eles emanam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Aquele brilho magistralmente registrado em uma tela de textura granulada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Aquarell, Aquarell...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaricio a rusticidade com a ponta dos dedos... Apraz-me o frêmito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os olhos parados, perdidos naquela tela e esgazeados como os dos ébrios, passo a balbuciar palavras inaudíveis:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Eu mesmo sou recluso de meu aposento que, ao mesmo tempo, é palco das minhas insones noites... Resta-me a alma”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vagarosamente, percorro as paredes cujos desenhos geométricos do papel se fundem e se confundem em minha mente; o ambiente com cadeiras, escrivaninha, estantes de livros, tudo negro... E até uma cama em estilo tatame forrada por um acolchoado repleto de caracteres japoneses sobre um fundo vermelho...Que falam de “amor”, “felicidade”, “paz”... Palavras sem eco para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu lado, um lindo vaso de cristal tcheco sobre uma toalha de crochê... Nele, uma dúzia de rosas vermelhas. As rosas estão vicejantes, belas em sua plenitude de rosas ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São três horas da tarde. O telefone toca: alguém pergunta se recebi as rosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- “Sim. Obrigado”. “Sim. São lindas”. “Não, não vou...” Deixo o telefone escorregar de minha mão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No enleio do fumo, no caminhar trôpego, minha mente divaga sobre a noite anterior... Ah! Minha primeira exposição no Guggenhein... Mil perfumes, abraços, flores... Sucesso... Sucesso... Observo as espirais do fumo morrerem diante da lâmpada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis horas da tarde... Minha mente viaja, e sem reconhecer fronteiras, agora estou num jardim de uma casa senhorial no sul da França. Ah! Aquele aroma inebriante das Scarlat Queens Elizabeth que nos cercam... Gente boa, gente amiga aquela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tímido raio de sol, em sua benevolência, atinge-me o peito, doura-me a alma... Sinto agora o cítrico, insinuante e quente aroma de limão com canela no ar... Inspiro-o profundamente. O chá então é servido por lacaios de Libré em um gazebo com cortinas de voil terracota, enfeitadas com passamanarias brancas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas escorrem, escorregam assim como a água que escorre inexoravelmente numa clepsidra transcendental, sem que nenhum ser humano ou divino consiga deter seu curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia noite... À luz da lâmpada, as rosas baças são circunscritas por um brilho que as ajudam a mostrar um viço que já não têm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três horas. Madrugada. O cansaço me assola e o sono, sem ajuda química, não vem. Submeto-me, mais uma vez, a meu vício... Ingiro alguns comprimidos e desmaio... Sono sem sonhos... Sonhar pra que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três horas da tarde do dia seguinte. Acordo. A princípio não sei onde estou... Mais um pouco, e o choque com o real: Olho para o vaso das rosas. Vejo os cabos ostentando as sépalas vazias... As pétalas já com tons amarronzados jazem na toalha de crochê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto a chuva caindo do lado de fora, ouço o bramir do mar; abro uma fresta na cortina, e com a face assustada olho pelo quadrilátero da janela florida, recosto-a sobre a fina película de vidro e observo as efêmeras bolhas da chuva...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem poder tocá-las...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Otávio Augusto Marin Martinez&lt;br /&gt;Rubens Marin Martinez&lt;br /&gt;São Paulo, Setembro de 2006&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Making of&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que ouvi “Aquarell” de Rolf Lovland e Fionualla Sherry (Secret Garden), fiquei impressionado e obstinado a escrever sobre as inspirações que aquela música me trouxe, porém, há muito tempo vinha trabalhando nesta idéia sem obter êxito; até que um dia, em conversa com meu pai, conseguimos fundir algumas visões e impressões sobre arte, algumas aparentemente opostas a princípio, outras, não... E assim nasceu “Aquarell".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;___________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-116394329533187911?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/116394329533187911/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=116394329533187911&amp;isPopup=true' title='30 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116394329533187911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116394329533187911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/11/aquarell.html' title='Aquarell'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-116338869745905398</id><published>2006-11-12T19:09:00.000-08:00</published><updated>2006-12-11T10:41:37.180-08:00</updated><title type='text'>neUrolAnd</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;neUrolAnd &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/P4170031.2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/P4170030.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 287px; CURSOR: hand; HEIGHT: 259px" height="374" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/P4170030.jpg" width="307" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/P4170031.3.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 286px; CURSOR: hand; HEIGHT: 259px" height="159" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/P4170031.jpg" width="400" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;neUrolAnd I&amp;amp;II - Copyright by Otávio Augusto Marin&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo as terminações nervosas da terra.&lt;br /&gt;Vejo as idéias, como feixes de luz, sendo produzidas.&lt;br /&gt;Os demônios que habitam as cavidades do sorriso.&lt;br /&gt;Os anjos que recolhem as lágrimas em taças de cristal líquido.&lt;br /&gt;As lágrimas que escorrem como cometas pelos sulcos da face.&lt;br /&gt;Sinta a relatividade do tempo pulsando no teu braço esquerdo.&lt;br /&gt;Sinta o oxigênio, com muito monóxido de carbono, entre teus dedos.&lt;br /&gt;Sinta o néon roxo da boca de porco te excitar nessa noite chuvosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há poucos metros, odores se encontram.&lt;br /&gt;O corpo quente é apenas uma massa apodrecendo.&lt;br /&gt;As massas caminham pelas ruas, pela via Láctea.&lt;br /&gt;Daqui do espaço, a Terra parece tão pacífica.&lt;br /&gt;Daí do inferno, o espaço parece tão tranqüilo.&lt;br /&gt;De lá da sala, o chip é uma placa inútil.&lt;br /&gt;De dentro do chip, o mundo não é visto.&lt;br /&gt;O universo é pequeno. Não podes ver além de tua realidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milhares de quilômetros. Anos luz!&lt;br /&gt;A bola infernal é apenas uma massa inexpressiva.&lt;br /&gt;Luzes cintilando, satélites vibrando. Informação...&lt;br /&gt;You’ve got a message! Um espectro de discurso ante meus olhos.&lt;br /&gt;Letreiros em todos os cantos da tela de plasma... CNN!&lt;br /&gt;O dólar caiu. Os grãos estão em alta. Foda-se, aplica no Google!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A informação caminha por fios...&lt;br /&gt;Cabos de fibra ótica nas profundezas do oceano...&lt;br /&gt;E se for wireless? hahaha&lt;br /&gt;É por isso que vejo tua cabeça sendo atravessada&lt;br /&gt;Por aquele tele sexo ardentemente mentiroso&lt;br /&gt;Por dados secretos do FBI&lt;br /&gt;Por imagens da meteorologia do Jornal Nacional.&lt;br /&gt;Vulnerável! Não podes ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, a oficina está apenas em silêncio.&lt;br /&gt;Veja os leads piscando...&lt;br /&gt;Sinta a estática na ponta dos dedos...&lt;br /&gt;Meça a pressão arterial ou a voltagem dos neurônios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras escorreram pelas ranhuras de meu cérebro&lt;br /&gt;Entraram na corrente sanguínea...&lt;br /&gt;Seguiram por meus tendões...&lt;br /&gt;Escoaram pelos campos magnéticos desta motherboard&lt;br /&gt;E, finalmente, com alegria, deságuaram em poesia...&lt;br /&gt;No conforto de sua casa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorria, você está sendo filmado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;Inspirado no albúm "Les Chants Magnetiques" de Jean Michel Jarre&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;____________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-116338869745905398?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/116338869745905398/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=116338869745905398&amp;isPopup=true' title='32 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116338869745905398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116338869745905398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/11/neuroland.html' title='neUrolAnd'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>32</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-116190496267648985</id><published>2006-10-26T16:07:00.000-07:00</published><updated>2007-04-12T20:56:13.545-07:00</updated><title type='text'>Agatha &amp; Aretha</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Agatha &amp; Aretha&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/1e558950.6.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/1e558950.7.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/1e558950.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Cable Mill - Cades Cove&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agatha, trêmula de frio em seu casaco de veludo de um verde já ruço, com seu toucado branco emoldurando sua carinha sardenta, onde se notava os cintilantes olhos azuis incrustados, aproxima-se do lampião e o acende...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiu-se o jantar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... Apesar do odor acre que recendia das travessas com restos de guisado de cordeiro postas sobre a redonda mesa em madeira de carvalho, as gêmeas McLachlan estavam inanimadas e não demonstravam asco. Com as cabeças pendidas sobre os frágeis punhos, tinham os olhos incendiados a mirar fixamente o lampião ao centro da mesa, como se naquela imagem fulgurante buscassem algum motivo para estarem vivas naquele momento. O velho pai, de costas para as moças, indiferente ao mundo que o cercava, balouçava-se lentamente em sua cadeira, enquanto pensava, entre uma tragada e outra em seu cachimbo: “- Ano que vem teremos uma das mais abundantes safras de tabaco. Bateremos Kentucky e, talvez, Virginia... Ah! Mais uma colheita”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visivelmente enfastiada de silêncio, Aretha levanta-se e, inconformada pela inércia da irmã, pega-a pelo braço; e esta, como uma boneca mambembe de pano, deixa-se levar. O dever as chama. Esta cena se repetia todas as noites naquele lar em Sevierville.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim aproxima-se o momento de se recolher...&lt;br /&gt;Aretha, arrastando seu camisolão e seus pés brancos sobre o poento assoalho, achega-se ao lampião; o fogo a cobria com seu véu avermelhado; em seus olhos amendoados uma trêmula e salgada lágrima que enfim escorre por seu rosto, pende em seu queixo e, relutante, cai sobre sua barriga prenhe. Ela murmura:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“- Não tenha medo da escuridão. Lucious, seu pai, que nunca amei, se foi, mas eu sempre estarei aqui”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apaga o lampião...&lt;br /&gt;O assovio do vento bravio misturava-se ao uivar dos coiotes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;------0000------&lt;br /&gt;Pela madrugada, Agatha, envolta em um xale, carrega uma lanterna de latão na mão, e, em passos temerosos, sai do bangalô irrompendo a “chaconage”¹ (espessa bruma azul); caminha sobre a pequena fonte congelada como quem caminha sobre um plácido espelho a refletir a lua e as estrelas do céu. Maravilha-se, e na sua boquinha desenha-se um sorriso pueril. Acaricia o alquebrado moinho que tantas vezes contemplou com o olhar perdido seu continuo mover-se pela força da água, segue mais alguns passos e então se apóia num álamo secular; a seu lado, ajoelha-se e passa a escavar a neve e depois a terra, retira uma pequena lata de biscoitos oculta pelo seu xale, escreve algo num papel, deposita-o na lata e a enterra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;------0000------&lt;br /&gt;Rompe o dia em sua mais pálida lucidez de inverno! Aretha desperta completamente abrindo seus olhos como se todo seu sono tivesse se esvaído naquele momento... Ouve o velho saindo para o campo e assoviando algum hino protestante, quando já distante, grita dizendo que volta a tarde... O aroma de chá e de pães torrados percorre toda a pequena moradia... Aspira profundamente, e ao suspirar, diz olhando para o espelho:&lt;br /&gt;“-Mais um dia!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com dificuldades, agacha-se e puxa seu fiddle² de debaixo da cama... Crava-o em seu pescoço. Ergue a cabeça com altivez e é movida por um sentimento solene como se fosse cortejar alguma autoridade. Com os dedos feridos e calejados, fricciona as cordas roucas daquele instrumento: começam a nascer as resolutas e arduas notas de “Napoleon's Retreat”³.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao tocar, vislumbra a farfalha de neve que esvoaça ao impulso lento da aragem e cai do outro lado da embaciada janela, é tomada por uma profunda melancolia e por um sentimento de culpa, quando então sente dores agudas e lancinantes que lhe atravessam o ventre como um punhal, abrindo-lhe as carnes e expondo ao mundo seus viscerais humores e o fruto de seu pecado; cai com os joelhos doridos sobre as taboas, pranteia, convulsiona e grita, urra com todas as forças da alma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As montanhas engolem o lamento e se calam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do quarto de Agatha, nem um som... – Ingerira Algumas gotas a mais de digitalina que foram fatalmente eficientes - Insatisfeita, a morte, naquele trabalho de parto, ceifa a segunda vida: Aretha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho aparvalhado chega e encontra a criança no chão a vagir tendo a seu lado a mãe morta e o fiddle de alma quebrada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano seguinte, a safra de tabaco do Tennessee bateu Kentucky e Virginia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------0000------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“- Hei, você está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meio aturdido e deslocado, vejo ao meu redor todo o grupo que me acompanhava na trilha dos colonos nas Great Smoky Mountains; percorro cada face com o olhar, até que a muralha humana termina e, enfim... Vejo o que sobrou do bangalô, do álamo e do moinho das irmãs MacLachlan, 160 anos depois...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Sim, estou. Apenas me perdi em pensamentos. Não se preocupem. Podemos seguir”. Respondo meio desconsertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo foi adiante. Eu fiquei. Minha curiosidade não me permitiu abandonar o local sem, ao menos, tentar encontrar a lata de biscoitos que Agatha enterrara. Apesar de irreconhecível, a lata ainda permanecia lá. Ao abri-la encontro um pergaminho amarelado e úmido, onde constava a seguinte mensagem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo passa, tudo se repete, ano após ano... É o ciclo da vida que gira, assim como este moinho que tanto me encantou em dias de sol. O que nos resta é o esquecimento, sempre. Agora é chegado o momento de apagar o lampião - não devo temer o escuro - além disso, outros se acenderão e se apagarão novamente. Entretanto, apesar de banal, mas não menos necessário, somente o amor permanece vivo a percorrer uma estrada retilínea de geração a geração, movendo os corações das mais variadas gentes. Por ele se vive, por ele se morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucious, eu te amei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agatha”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após ter descoberto o segredo de Agatha, enterrei novamente a lata de biscoitos e segui adiante, perplexo com tudo que havia visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;------0000------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¹ Chaconage é o nome dado pelos Cherokees para a neblina de coloração azul das Great Smoky Mountains que é uma extensa cadeia de montanhas nos EUA. Atualmente o local é um parque nacional, mas desde o século 17 foi ocupado por colonos vindos da Alemanha, Inglaterra, Escócia e Irlanda.&lt;br /&gt;² Fiddle é um violino rústico geralmente usado em canções irlandesas, escocesas etc.&lt;br /&gt;³ É uma das mais belas canções dos colonos, porém existem algumas variações sobre ela, a utilizada no conto é de autoria de Gary Remal Malkin.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;__________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-116190496267648985?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/116190496267648985/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=116190496267648985&amp;isPopup=true' title='22 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116190496267648985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116190496267648985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/10/agatha-aretha.html' title='Agatha &amp; Aretha'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-116140730219962254</id><published>2006-10-20T21:48:00.000-07:00</published><updated>2006-12-06T12:24:50.013-08:00</updated><title type='text'>Tragédia em Seis Dimensões</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Tragédia em Seis Dimensões&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/six.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/320/six.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Desenho tosco de minha autoria&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto, vovó Lourdes tranqüilamente repousava,&lt;br /&gt;Na sala, Pedrinho fazia súplicas em sua oração,&lt;br /&gt;Na cozinha, mamãe Maria loucamente berrava,&lt;br /&gt;Na varanda, papai José ria para o céu com gratidão,&lt;br /&gt;No banheiro, Paulinha descontroladamente chorava.&lt;br /&gt;E na garagem... Zezinho esperava ansiosamente o rabecão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes rimas baratas e honestas do que prosa medíocre, copiada, xerocada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;All rights reserved!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-116140730219962254?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/116140730219962254/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=116140730219962254&amp;isPopup=true' title='16 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116140730219962254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/116140730219962254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/10/tragdia-em-seis-dimenses.html' title='Tragédia em Seis Dimensões'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115969473946311960</id><published>2006-10-01T02:19:00.000-07:00</published><updated>2007-05-08T15:44:15.431-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Três Quadros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A Decisão de Rebecca&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Desde que Leslie morreu, nada havia mudado naquela casa desajeitada, porém, naquela tarde de verão, dois anos após, ela percebeu que tudo parecia extremamente claro aos seus olhos, sua alma parecia estranhamente mais sensível ao mundo... Os detalhes do florão de gesso no teto pareciam mais nítidos, os pequenos arranjos de ramagens de papoulas vermelhas e centáureas azuis estampados no papel de parede amarelado pareciam mais alegres, mais delicados... Tão vicejantes! Olhou para a penteadeira de ébano e viu o espelho rachado de ponta a ponta a refletir os raios de um tímido sol, comprimiu os lábios, engoliu seco e ficou com o olhar fixo lá por alguns instantes, recordava-se das imagens que o mesmo refletira naquela noite... Dos gritos, do bafo de rum que exalava da boca do inferno, sentiu a febre das pústulas de sua alma... Ao longe ouvia a voz da mãe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Vire-se, Rebecca, vire-se! Parece que está morta. Temos que ajeitar logo esse vestido... Onde estão as flores?”. “Hummm... Não sei...”&lt;/em&gt;, disse ela quase sem voz, enquanto seus expressivos olhos negros morriam num horizonte inalcançável.&lt;em&gt; “Já está quase na hora!”, berrava a mãe".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela virou-se, e contemplou o vasto jardim através da janela emodulrada por cortinas de chintz azul clarinho, e então encarou o sol que logo aqueceu sua face vincada por antigas lágrimas e dores, sentiu o vento esvoaçar seus cabelos cacheados, olhou para a amplitude do céu, vislumbrou os ciprestes ao fundo, viu o velho cocker spaniel rolando livre na grama, suspirou profundamente, mordeu os lábios que insinuavam um sorriso e consentiu com a cabeça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já sabia o que fazer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Igual brilho em seus olhos somente fora visto quando Leslie, seu padrasto, morrera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A Ansiedade de Antoine&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O salão de &lt;em&gt;Buffet&lt;/em&gt; à meia luz; os três músicos contratados a postos; um oboé, uma viola e um violoncelo; a música escolhida: &lt;em&gt;Pomp and Circunstance&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas mesas já postas só faltava o &lt;em&gt;cachepot&lt;/em&gt;, na verdade, mini &lt;em&gt;ikebanas&lt;/em&gt; com uma tulipa fúcsia, um lírio do campo e um galho de cipreste, artisticamente arranjados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antoine, o &lt;em&gt;maître&lt;/em&gt;, ansioso olhou para o relógio várias vezes até que ordenou que fossem aquecidos os &lt;em&gt;rechauds&lt;/em&gt; do &lt;em&gt;main-dish&lt;/em&gt;. Os segundos, minutos, quartos de horas, meias horas e horas inteiras escorreram pela noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada vez mais nervoso pelas idas e vindas ao bar, constatou que o violista bebera demais... &lt;em&gt;“Porco desregrado”,&lt;/em&gt; pensou. Naquele momento, um convidado solicitamente foi ter com ele... A pergunta: &lt;em&gt;“o que aconteceu?”&lt;/em&gt;, nunca foi feita; Antoine, por sua vez, desviou o olhar desconcertado, escondendo a face e deixando exibir a sua rubra planície calva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram dadas ordens para apagar os rechauds, os músicos, assim como os garçons, foram dispensados, o violista saiu carregado pelos colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As luzes se apagaram... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A Lágrima de Gerard&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Noite alta, quietude...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí para passear naquele lindo jardim de aléias flexuosas, de aromas inebriantes, ciprestes, damas da noite... O luar dava todo um “quê” fantasmagórico, irreal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, deparo-me com um cavalheiro sentado num banco de mármore, estava com as pernas esticadas até o meio da aléia, a cabeça caída para traz, vestia um &lt;em&gt;black-tie&lt;/em&gt;, aberto, deixando assim mostrar um peitilho de piquê, uma gravata de laço... Com o laço já desfeito; na mão direita segurava uma garrafa de &lt;em&gt;whisky Ballantine’s twenty&lt;/em&gt;; na mão esquerda, pousada sobre o banco, deixava ostentar uma pulseira de prata que revelava seu nome... &lt;em&gt;Gerard&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua etérea deixava ver o caminho cristalizado de uma lágrima em sua face...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto não ser um mendigo ou indigente, perguntei: &lt;em&gt;“O que aconteceu, amigo?”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a voz mais triste que já ouvi em toda minha vida, respondeu-me laconicamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Ela disse não”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o luar deixou-me antever outra lágrima que teimava em percorrer o mesmo percurso de suas antecessoras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;------000000------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Otávio M Mártinezi&lt;br /&gt;São Paulo, Inverno de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;___________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115969473946311960?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115969473946311960/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115969473946311960&amp;isPopup=true' title='34 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115969473946311960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115969473946311960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/10/trs-quadros.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>34</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115836363463652755</id><published>2006-09-15T16:21:00.000-07:00</published><updated>2006-11-20T03:37:46.850-08:00</updated><title type='text'>Actus Tragicus</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Actus Tragicus&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/44240.1.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 358px; CURSOR: hand; HEIGHT: 449px" height="400" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/44240.jpg" width="329" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/44240.0.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;"El Entierro del Conde de Orgaz" El Greco, (por volta de 1585)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Madrugada fria, quieta, nebulosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ermida pequena, quatro círios velando uma urna; ao fundo, as obrigatórias e belas coroas de flores, faixas com dizeres poéticos e tocantes, porém frios e esdrúxulos no seu papel apenas de representar, falavam de saudades, de uma esposa. Ausente; de filhos. Ausentes; e amigos... Ainda como pano de fundo, um enorme crucifixo com um magnífico esplendor por detrás, nele um Cristo em toda sua inutilidade de ali estar; à sua frente, um genuflexório... Vazio. A um lado, um turíbulo carente de incenso e mirra... Os vitrais da capela-morgue, sem dúvida, um capítulo de beleza à parte, cenas dos grandes mestres ali retratadas: A crucificação, a ressurreição e algumas cenas do apocalipse... Tudo muito pertinente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Momento, Homo, quia pulvia es et in pulverem reverteris...”(1)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O dia já se anunciava, tirando do ventre da noite a aurora ensaguentada*... Chega ela, a Outra, o único e verdadeiro amor, incondicional por sua natureza, deu e recebeu... Sem nada pedir. Os poucos amigos espalhados em grupinhos por ali, entreolharam-se... Sem um cumprimento, sem nem sequer uma palavra, achega-se à urna e chora... Chora calada, sem o direito de dizer “- Adeus, meu amor”, que com certeza deixou um travo em seu peito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Amittere non potest quis, quod suum non fuit." (2)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O sol já timidamente esparramava-se no horizonte... Como uma fugitiva, ela sai, vindo o sol a projetar-lhe a sombra alongada que nos faz pensar que os pecados antigos projetam longas sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Requiescat in pace..."(3)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanheceu... Dia claro, começaram a chegar os parentes, amigos, conhecidos... Uma hora antes dos serviços fúnebres, chega a esposa com um costume negro debruado de verniz, echarpe, bolsa e sapatos &lt;em&gt;“Hermès”&lt;/em&gt; cinza prata, em suma, aquela simplicidade escandalosamente evidente, ao estilo &lt;em&gt;Jackie O’&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Lady Di&lt;/em&gt;. Ao invés de achegar-se ao caixão, procura com os olhos, atrás de uns óculos escuros &lt;em&gt;“Dolce &amp; Gabana”&lt;/em&gt; o Dr. Macedo de Alencar, advogado da família; a conferência ali foi relativamente longa, falou-se dos bens deixados, assim como de sua destinação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sic transit gloria mundi..."(4)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Obedecendo a um sinal do sacerdote, junto à família, uniu-se na oração (?). Cena tocante, a esposa levanta o véu negro que lhe cobre o chapéu e deposita sobre a urna três rosas brancas de cabo longo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acta est fabula..."(5)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Otávio Augusto Marin Martinez&lt;br /&gt;Rubens Marin Martinez&lt;br /&gt;São Paulo, Julho de 2006&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Frase inspirada no poema "Horizonte nas Mãos" do eminente &lt;em&gt;Prof. Valter José Faé&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;(1) Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás.&lt;br /&gt;(2) Não se pode perder o que não foi seu.&lt;br /&gt;(3) Descanse em paz.&lt;br /&gt;(4) Assim passa a glória do mundo.&lt;br /&gt;(5) Acabou a representação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;___________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115836363463652755?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115836363463652755/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115836363463652755&amp;isPopup=true' title='17 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115836363463652755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115836363463652755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/09/actus-tragicus.html' title='Actus Tragicus'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115789694838399553</id><published>2006-09-10T06:47:00.000-07:00</published><updated>2006-11-20T03:46:38.763-08:00</updated><title type='text'>Trasnlado ao Infinito - Rubens Marin Martinez</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Translado ao Infinito - Rubens Marin Martinez&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/image.0.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/image.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma caverna...&lt;br /&gt;Mil repuxos...&lt;br /&gt;Mil cascatas...&lt;br /&gt;Semi-obscuridade...&lt;br /&gt;Reflexos verdes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colunas...&lt;br /&gt;Arcos...&lt;br /&gt;Uma ogiva principal como numa catedral gótica...&lt;br /&gt;Inúmeras capelas cavadas nas paredes nuas, negras...&lt;br /&gt;Terrível espectro lusco-fusco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho mais idéia do que, dos porquês, onde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente está úmido, denso, e saturado. Sinto-me esmagado no chão de areia, esperando que algo me retire da letargia que, não sei como, me encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para todos os lados e tenho só, em todos os ângulos que a minha vista pode alcançar, a confirmação absurda de meu absurdo sonho... Sonho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o alto, e agora posso me recordar da boca enorme e escancarada da cratera da qual nas bordas, na fraqueza, na vertigem das alturas, perdi por deslocamento do meu ponto gravitacional em relação ao da Terra, meu mambembe equilíbrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, ao invés de ter idéias, submeto-me ao único pensamento que me ocorre... Sair, sair...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro uma fenda, uma greta, um buraco, uma saída!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio... Entretanto, não afasta-se de mim o pensamento e a visão do âmago das entranhas da terra, onde sentia-me esmagado e exposto à vista daquela visão granítica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora está muito claro, etéreamente claro! Não consigo abrir os olhos. Quero ver... Em mais um esforço, afinal, o que me importa mais uma dor? Abro os olhos, a intensidade da luz fere-me as retinas, mas enfim, vejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou numa praia, diante de um sereno lago, lindo legado da mãe natureza! Vejo um céu áureo, quase artificial, iluminado por uma luz clara, branca, quase elétrica que, às vezes, parece emitir todas as cores do prisma enfeixadas dentro de uma atmosfera que, embora respirável, não era, não podia ser meu mundo! Mas mesmo assim, sentia-me parte daqueles elementos, meu sangue parecia correr no mesmo sistema, meu ser coadunava-se com aquela placidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo estático e não podendo recompor minhas idéias, não consigo coordená-las...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa bate no meu rosto... Vejo um barco no lago... Parece uma jangada, à qual a luz que, embora não emane de pontos aleatórios, mas sim a oeste, consegue projetar uma sombra mais alongada e oblíqua do que realmente deveria ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou aturdido... Ando para fazer um reconhecimento, sinto que meus pés pisam o grés variegado do fulvo solo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inflamo-me, gasefico-me, volatibilizo-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repentinamente, transmuda-se em fúria o lago dantes tão adormecido e calmo, agora encapela-se em grandes e medonhas vagas coroadas de espuma, que mais assemelham-se monstros dragônicos e ignívomos a vomitarem luz azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo está muito claro, elétricamente claro, tudo parece brilhar propositalmente e argônicamente, permitindo que todas as formas geométricas daquela paragem, inclusive as linhas curvadas do marear daquela água azul lutulenta, tal como óleo pigmentado com azul de metileno, tenham suas divisas circunscritas a fogo-de-Santelmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que loucura, meu Deus!&lt;br /&gt;Onde estou?&lt;br /&gt;Quem sou?&lt;br /&gt;O que fui?&lt;br /&gt;Fui algo?&lt;br /&gt;Fim?&lt;br /&gt;Sou finito ou infinito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso mais, não, não mais! Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Texto escrito por meu pai, Rubens, em 1977.&lt;br /&gt;Adptado por Otávio Augusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem tiver oportunidade, ouça a Ópera Rock "Journey to the Center of the Earth" de Rick Wakeman ao ler este texto.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;____________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115789694838399553?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115789694838399553/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115789694838399553&amp;isPopup=true' title='8 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115789694838399553'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115789694838399553'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/09/trasnlado-ao-infinito-rubens-marin.html' title='Trasnlado ao Infinito - Rubens Marin Martinez'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115782890427038387</id><published>2006-09-09T11:41:00.000-07:00</published><updated>2006-12-16T18:10:16.530-08:00</updated><title type='text'>Muros Rachados</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Muros Rachados &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/TTfoto806.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/TTfoto806.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;strong&gt;Os três principais atores de "O Tunel do Tempo"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, erguemos a cortina de ferro... Até que um dia o muro cedeu...&lt;br /&gt;Provando que toda bandeira empunhada...Um dia cai!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: ai! O que aconteceu?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo, tudo parece tão estático...&lt;br /&gt;Foi tudo tão rápido ou foi só a minha barba que cresceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, erguemos quatro paredes mágicas... E Chico compôs Construção...&lt;br /&gt;Mas todas paredes levantadas... Um dia cedem!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: Estivémos no Édem e vivemos nesta perdição?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo, tudo parece tão claro...&lt;br /&gt;E não raro ainda ouve-se a voz de Caubí a cantar... Conceição!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, ao som de Moonlight Serenade... Dançávamos à luz do luar...&lt;br /&gt;Mas toda luz que acende... Um dia apaga!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: De que vale a luz da lua e a serenata, se a graça hoje é só ficar?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo, tudo parece tão evidente...&lt;br /&gt;O beijo na boca é bom e confidente, ao revés, entre quatro paredes, praticam sexo a amar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, o Império Mongol... Fizeram os chineses uma muralha construir...&lt;br /&gt;Mas todas as fortalezas... Um dia são abaladas!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: De largas muralhas precisamos para nos distinguir?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo, tudo parece tão estranho...&lt;br /&gt;Vivemos um individualismo tacanho, e paradoxalmente, pela internet teimamos em nos exibir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo...Morreram pela democracia...&lt;br /&gt;Mas toda revolução... Um dia se finda!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: Se ainda há democracia, por que existe tanta assimetria?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo tudo parece tão vivo...&lt;br /&gt;Oras! Vejam como o mundo é rico, Os estudantes ainda protestam nos muros da periferia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, estava a escrever poesias lindas...Drummond de Andrade...&lt;br /&gt;Mas tinha uma pedra no meio do caminho... Um dia o vento a varreu!&lt;br /&gt;E cá ficamos a nos perguntar: Morreu a chamada criatividade?&lt;br /&gt;Mas ao mesmo tempo, tudo parece ainda tão lindo...&lt;br /&gt;E dando por findo. Pulo os muros da história, achando ser poeta...Tende Piedade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Así como todo cambia... Que yo cambie no es extraño"*&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;____________________________&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Dedico estes versos ao meu pai Rubens... Que apesar de muita coisa ter mudado ao longo de sua vida, "continua sendo meu pai"... E continua me amando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*frase de Mercedes Sosa em "Todo Cambia"&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;____________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2005&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115782890427038387?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115782890427038387/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115782890427038387&amp;isPopup=true' title='18 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115782890427038387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115782890427038387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/09/muros-rachados.html' title='Muros Rachados'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115715690261644994</id><published>2006-09-03T16:39:00.000-07:00</published><updated>2006-12-07T07:43:05.416-08:00</updated><title type='text'>Do Minimalismo ao Maximalismo</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Do Minimalismo ao Maximalismo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/tyy.1.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/tyy.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;"Otávio in Botles" - Otávio Augusto's self portrait&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pronto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei a garrafa com a rolha, virei-me, e segui o caminho dentro daquele micro túnel...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para mim, percebi que estava nú... Tudo tão objetivo que não me causou espantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que a cada passo que avançava, o espaço deixado para trás se desfazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luminosidade intensa e monocromática emanava de baixo, de cima e das laterais, mas eu não podia ver as laterais, meu corpo não se movia para os lados, só para frente...&lt;br /&gt;Seguia com os olhos fitos no infinito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia som...&lt;br /&gt;Não havia cheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente luz e o infinito túnel diante de meus olhos...&lt;br /&gt;Nada sentia: Dor ou prazer, alegria ou tristeza...&lt;br /&gt;Nada pensava, mas sabia que meu coração pulsava...&lt;br /&gt;Apenas percebia que um fio de vento vinha do infinito e fazia um redemoinho em meu umbigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhava...&lt;br /&gt;Anestesiado...&lt;br /&gt;Vazio...&lt;br /&gt;Leve...&lt;br /&gt;Caminhava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, um sútil escorregão e um frio na barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Cheguei ao núcleo...&lt;br /&gt;Sentei-me e esperei a eternidade sem, sequer, piscar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até que um dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ruído estridente e tenebroso rompeu o silêncio violentamente... Mas permaneci imóvel e apenas fechei os olhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei, estava vestido ao estilo rococó, com plumas, ouro em excesso, maquiagem de todas as cores me tingiam. Sentia-me alto como um gigante e pesado como um elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só conseguia caminhar para trás, era involuntário. Milhões de seres iguais a mim agiam da mesma forma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arco-íris se misturavam aos fogos de artifício, enquanto o sol incandescente namorava com duas luas, uma azul, outra vermelha e de seu suor emanava um aroma floral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, uma banda tocava marchas militares com gaitas de foles, uma escola de samba aquecia os tamburins e uma orquestra interpretava a "Cavalgada das Valquírias" de Wagner.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dançava uma dança louca sem coordenação, movimentando todos os músculos do corpo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas gritavam sem parar, carros buzinavam, milhões deles... Aviões se esbatiam no céu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia todas as emoções do mundo ao mesmo tempo, mas percebi que meu coração não pulsava mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos apareciam do nada e enfiavam pêssegos, uvas e mel em minha boca, uma explosão de sabores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que eu imaginava se materializava, e minha mente não parava de imaginar, até que começei a me afogar em meio aos objetos que havia criado com minha imaginação: brinquedos, pianos, trombones, pneus e pára raios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pára!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio imperou, as luzes, os carros, os ritmos, as pessoas ficaram estáticas...&lt;br /&gt;Avistei na calçada uma garrafa solitária... Cheguei perto e me vi lá dentro, reduzido a dois centimetros, nú, vazio e inerte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bradei: Maldito Minimalismo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, de dentro da garrafa, sinalizei com os lábios sem voz: Maldito Maximalismo! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;____________________________ &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Texto inspirado na música &lt;em&gt;"Ask The Mountains"&lt;/em&gt; de &lt;em&gt;Vangelis&lt;/em&gt;. Ouça e veja o clipe da música aqui, vale a pena!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=4pnwf2P5Ve0" target="_blank"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=4pnwf2P5Ve0&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;____________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115715690261644994?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115715690261644994/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115715690261644994&amp;isPopup=true' title='11 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115715690261644994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115715690261644994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/09/do-minimalismo-ao-maximalismo.html' title='Do Minimalismo ao Maximalismo'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115708029316662153</id><published>2006-09-02T19:52:00.000-07:00</published><updated>2007-05-14T07:06:33.611-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Fragmentos de Pós-Modernidade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/pollock.13.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Onze e meia da manhã...&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era o momento em que pendia suspenso sobre minha cabeça o bloco concreto e frio do &lt;em&gt;MASP&lt;/em&gt; que exibia &lt;em&gt;Degas&lt;/em&gt; naqueles dias. Aquela nuvem negra e pesada parecia me penitenciar por todos os pecados e incertezas que carrego comigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Meio dia&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Estava recostado em uma das imensas pilastras, enquanto o vento frio solapava meu rosto, agredia meu cabelo, cortava minh’alma e atordoava-me com tremores internos... Esperava por ela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Meio dia e meio&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Através das lentes daqueles óculos escuros a lá &lt;em&gt;John Lennon&lt;/em&gt;, observava o mundo em movimento, as pessoas, suas aflições, seus risos... Seres humanos e sentimentos espirrados sobre a tela da vida: &lt;em&gt;Pollock&lt;/em&gt; (1) estava à minha volta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saquei a caderneta, e com palavras tracei o retrato daquele fragmento de tempo e sensações. Sentia-me a correr pelas veias do mundo, sentia o mudo a correr em minhas veias num ritmo constante e repetitivo, &lt;em&gt;Philip Glass&lt;/em&gt; (2) soava quadradinho, quadradinho em meus ouvidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha aldeia era tudo aquilo, toda aquela pressa, aquela arte, aquela abstração que se fazia concreta, aquela angustia de uma... Não-aldeia, a celebração e exacerbação do foro individual. Solidão? Não. Sentir-se sozinho em meio à multidão seria clichê, além de mentira, eu bem sei... Estava muito bem acompanhado de minha alma gorda e cinza... Mas no fundo, inevitável seria não encontrar a solidão. Ah! Tudo tão ambíguo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Uma e meia da tarde&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;Via a protetora mãe a berrar alertas para os filhos não irem longe...&lt;br /&gt;Via os filhos correndo e rindo à volta do indigente caído, inerte e indiferente a sonhar...&lt;br /&gt;Sonhava – Sim, sonhava sobre o amor dos beijos do casal escondido entre as escuras pilastras de concreto...&lt;br /&gt;O amor escondido, confuso e frágil que buscava autoconfirmação, alívio e indulgência em beijos intrépidos e desesperados.&lt;br /&gt;Desespero: era o que sentia na minha infinita espera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Duas horas da tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Via artistas comentando literatura adaptada ao teatro, alguém falava da adaptação de &lt;em&gt;“Quando Nietzsche chorou&lt;/em&gt;”, obrigatoriamente falavam sobre &lt;em&gt;“espíritos livres...”&lt;/em&gt; Bastavam algumas palavras mais para caírem em &lt;em&gt;Freud. What a Wonderful World! Don't you think?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperava já não mais podendo suportar a ansiedade ácida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Duas e meia da tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ela chegou! Atrasada como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele amor quase proíbido, quase esquecido, quase... Deus! Abraçamo-nos e balbuciamos algumas palavras... Não sei quais, não faziam sentido. Sentia o mesmo cheiro natural, o mesmo toque de pele, o mesmo brilho nos olhos, aqueles olhos de mar... Era ela... Minha bailarina de Degas (3)!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela atracou-se em meu braço sem hesitar, como uma nau perdida ao porto seguro, (mal sabe ela de minha combalida segurança). A partir de então, o mundo deste que vos fala saiu do cinza e tomou cores leves, cores de Degas, os ouvidos se encheram de &lt;em&gt;Satie&lt;/em&gt;(4)... E ela me induziu a um mundo que sempre evitamos: o da Intimidade, do comprometimento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Três horas da tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já dentro do museu, algo nos perturbava a ponto de nos silenciar e, em esforços hercúleos, tentávamos tecer comentários sobre aquelas obras, mas nossas palavras pareciam pequenas, triviais, tão triviais quanto nossas vidas, quanto este texto. Nosso diálogo quase minimalista dava espaço para o diálogo silente de nossas almas. Nossas bocas estavam cerradas, mas nossos peitos gritavam em labaredas infernais. Pensando bem, o que poderia dizer se a mais linda obra de arte não estava diante de mim, intocável, protegida por um vidro, mas sim a meu lado, com a cabeça deitada carinhosamente sobre meu ombro, dando-me seu calor e fitando-me desavergonhadamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Quatro horas da tarde&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;Finalizamos nossa jornada diante dos esboços de &lt;em&gt;Picasso&lt;/em&gt; (5), onde constava o &lt;em&gt;“Degas sonhador”&lt;/em&gt; em cenas de bordéis nada delicadas do ponto de vista moral, (que se danem os moralistas da arte!). Entretanto, foi justamente nestes desenhos que me reconheci, e percebi que ela também; lá estava expressa nossa complexidade, nossa confusão, nossa distorção, talvez até “a nossa bela feiúra moral”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Quatro e quinze da tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já caminhávamos pela Avenida Paulista, e em nosso caminho víamos &lt;em&gt;Hare Krishnas&lt;/em&gt; vendendo incensos, outros vendiam pedaços de amor em papel com a finalidade de matar a fome de alguém lá na Eritréia; um poeta vendia poesias para matar sua fome; pastores protestantes pregavam sua crença para matar a fome espiritual de seus fiéis, etc... O mundo tem fome. Interessante é notar que o transcendente ainda sobrevive nestes dias secularizados e racionalizados, isso é bom, confortante. Devido a essa liberdade, a essa pluralidade, pude também constatar que, em nossos dias, as pessoas buscam arrebanhar-se em comunidades, mesmo que sejam esdrúxulas quando vistas de outros ângulos, isso lhes dá uma sensação de segurança, dá um sentido às suas vidas, lhes rende uma identidade numa sociedade massificada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Quatro e meia da tarde&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Sentimos fome... &lt;em&gt;McDonald’s, no doubt!&lt;/em&gt; Lá, pudemos rir um pouco. É conveniente rir no McDonald's!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Superficial de nossas máscars contrastava com o profundo de nossos corações. Até que a alma tomou a voz emprestada, e em breves palavras revelou que os sentimentos de outrora continuavam cálidos e viris, mas não podiam constituir uma “relação séria”, talvez pela distância que nos separa... Uma distância estranha, não somente geográfica. O silêncio fez-se presente novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Cinco e meia da tarde&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Caminhávamos relativamente conformados em direção à estação de metrô, e quando estávamos em frente a &lt;em&gt;FIESP&lt;/em&gt;, virei-a em minha direção, olhei em seus olhos, que estavam como diques prestes a transbordar, e a beijei... Lampejos de romantismo, intenção de invadir e de deixar-se invadir, armaduras rasgadas... Era o beijo que guardava para ela há tanto tempo... Houve recíproca, não houve pudor. E este foi o único momento em que pensei que aquele quadro desolador de algumas horas atrás não passava de apenas um retrato de uma vida, de uma sociedade, plástica que eu havia modelado. Tudo parecia tão certo, harmônico, pacífico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Seis horas da tarde&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Estação após estação, e ela se mantinha atada em meu peito; uma harmonia perfeita, duas peças da mesma escultura, mas que foram divididas e que sobreviviam afastadas e centradas apenas em suas singularidades. Entretanto, as duas peças agora tomariam rumos diferentes novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O derradeiro beijo, o derradeiro abraço... E para minha surpresa... Um “eu te amo” pronunciado a voz terna ao pé do ouvido... Pela primeira vez, senti que seu corpo era de fato um manto cozido de amor e piedade a envolver-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou minha estação, &lt;em&gt;- “acabou”&lt;/em&gt;, disse eu. Sai de costas olhando para ela, e involuntariamente minha mão percorreu todo seu braço, como se quisesse lá imprimir um sinal de reticências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Seis e vinte e cinco da tarde&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Uma vez fora do vagão, pude vislumbrar minha obra de arte, não mais a meu lado, mas diante de mim... Intocável, protegida por um vidro inviolável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Philip Glass voltou a meus ouvidos, Satie engasgou-se, Pollock renascendo a minha volta, Degas morrendo em meus olhos e eu mesmo em minha consciência, firme, mas nada forte... Afastava-me e via o vagão partindo ao mesmo ritmo crescente, ininterrupto e repetitivo de meus passos. Olhos nos olhos em distância; sem acenos, sem sorrisos, consentimento e ameaça de lágrimas. Tudo vai passar, nada que alguns miligramas de &lt;em&gt;Prozac&lt;/em&gt; não cure...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas restaram reticências cheias de esperança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Sete horas da noite...&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;------000000------&lt;br /&gt;Otávio M Mártinezi&lt;br /&gt;São Paulo, Inverno de 2006&lt;br /&gt;------00000-------&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Para Natália&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;____________________&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Jackson Pollock (1912 - 1956), pintor americano que deixou impressa nas telas um pouco da cultura americana de sua época, além da influência de muralistas mexicanos como Orozco e Rivera. &lt;/em&gt;&lt;em&gt;Fiz citação ao pintor neste contexto baseado na imagem da tela "number one, (Lavender Mist, n°1), 1950".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(2) O americano Philip Glass (1937), é um um dos nomes mais conhecidos da música pós-minimalista, mas ele prefere que sua música seja considerada como "música de teatro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(3) Edgar Degas (1834-1917), pintor e fotógrafo francês e um dos maiores nomes da escola impressionista. &lt;/em&gt;&lt;em&gt;A citação ao grande pintor foi baseada em dois pontos: 1) na imagem suave de "A Primeira Bailarina", 1878. (Tal bailarina está relacionada com a personagem feminina da crônica). 2) Parte da crônica é vivida durante a exposição de Degas no MASP em Junho de 2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(4) Erik Satie (1866-1925), compositor francês extremamente excêntrico, foi criador do gênero "musique d'ameublement" ou "música ambiente" que era distinguida pela suavidade e despretensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(5) Pablo Picasso (1881-1973), artista espanhol que foi precurssor do cubismo e ícone do expressionismo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;___________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115708029316662153?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115708029316662153/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115708029316662153&amp;isPopup=true' title='27 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115708029316662153'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115708029316662153'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/09/fragmentos-de-ps-modernidade.html' title=''/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115662889238193371</id><published>2006-08-26T14:30:00.000-07:00</published><updated>2006-12-16T18:11:05.636-08:00</updated><title type='text'>Le Carroussel</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Le Carroussel&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/carrocel.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 396px; CURSOR: hand; HEIGHT: 278px" height="266" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/carrocel.jpg" width="426" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;"Speedy Carroussel". Foto cedida gentilmente pelo grande fotografo português, Emanuel Martins (&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.treklens.com/gallery/Europe/Portugal/photo4590.htm" target="_blank"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;http://www.treklens.com/gallery/Europe/Portugal/photo4590.htm&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;), a quem agradeço muito.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Tourne la Terre...&lt;br /&gt;Naître d’amour...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne une chanson (...)&lt;br /&gt;Com sons, compor uma canção;&lt;br /&gt;Com palavras, poesia;&lt;br /&gt;Com imagens, uma tela;&lt;br /&gt;Com vida, movimento;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tournent les heures...&lt;br /&gt;Vivre pour amour...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne le parole (...)&lt;br /&gt;Com sons, compor palavras;&lt;br /&gt;Com palavras, imagens;&lt;br /&gt;Com imagens, a vida;&lt;br /&gt;Com a vida, imitar a arte;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne le carroussel...&lt;br /&gt;Mourir D’amour...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne l’image (...)&lt;br /&gt;Compor sons, com palavras;&lt;br /&gt;Palavras, com imagens;&lt;br /&gt;Imagens, com vida;&lt;br /&gt;Imitar a vida, com a arte;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne la Terre...&lt;br /&gt;Tournent les heures...&lt;br /&gt;Tourne le carroussel...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourne, Tourne!&lt;br /&gt;Compor uma canção, com vida;&lt;br /&gt;Uma tela, com palavras;&lt;br /&gt;Poesia, com sons;&lt;br /&gt;Compor vida, com... Movimento;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naître de l’amour...&lt;br /&gt;Vivre pour amour...&lt;br /&gt;Mourir d’amour...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tourner la chanson, la parole, l’image et le movement&lt;br /&gt;Vida: Espaço de criação. Cria-se a palavra.&lt;br /&gt;Palavra: Com sua força, cria-se a poesia.&lt;br /&gt;Poesia: Seus encantos adornam a canção.&lt;br /&gt;Canção: Ondas sonoras que incitam movimento.&lt;br /&gt;Movimento: Momento registrado em uma tela.&lt;br /&gt;Tela: Imagem.&lt;br /&gt;Imagem: Representação de objetos e cenas da vida.&lt;br /&gt;Vida: Espaço de criação. Cria-se a arte.&lt;br /&gt;Arte: Está prenhe de imagens, palavras e sons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sons...&lt;br /&gt;Tourne...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;------[[]]-------&lt;br /&gt;Ao som de Chronologie 6 de Jean Michel Jarre, escrevi estes versos que, de certa forma, representam um momento em minha vida, o momento que completo 25 anos de idade, ou seja, hoje, dia 7 de Agosto de 2006. Em um instante tosco de um ser comum, notei uma certa ciclicidade em minha própria história; em despeito às mudanças que sempre ocorrem, sentimentos se repetem, vem e voltam de formas diferentes... Erros que cometi no passado, poderei cometer novamente e novamente... Enfim, existem coisas imutáveis dentro de mim... Descubro-me e redescubro-me dando-me eternamente o perdão e a chance de ser um novato na vida. E tal pensamento impeliu-me a chegar a seguinte conclusão: O passar do tempo não me faz mais experiente e melhor, apenas mais velho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, o poema fala muito mais do que de minha vidinha, a interpretação é livre...&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;___________________________ &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Para assistir e ouvir Chronologie VI de Jean Michel Jarre, clique aqui:&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=XuaNwxVx5Y8" target="_blank"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=XuaNwxVx5Y8&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;___________________________&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115662889238193371?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115662889238193371/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115662889238193371&amp;isPopup=true' title='20 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115662889238193371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115662889238193371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/08/le-carroussel.html' title='Le Carroussel'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32970607.post-115601846697010325</id><published>2006-08-19T13:12:00.000-07:00</published><updated>2006-12-07T04:29:20.793-08:00</updated><title type='text'>Eu &amp; Frau Schreiber</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Eu &amp; Frau Schreiber&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/1600/GG3.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5962/1015/400/GG3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Self Portrait&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma paixão aterradora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou na minha infância, na verdade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a vi de longe... Estávamos no Teatro Municipal de São Paulo; ela dobrava-se amorosamente nos braços de um senhor, e a ele murmurava doces lamentos; ele, por sua vez, com os olhos cerrados, concordava ardorosamente com suas palavras lentamente movimentando a cabeça. Não sei como eu conseguia ouvir seu murmúrio em meio a tanto barulho, mas eu a ouvia perfeitamente! E ao ouvir sua voz aveludada, meu coração se rendeu àquela senhora de estranho porte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado algum tempo, eu, um garoto de apenas 11 anos, fui em busca dela, mas não a encontrava. Porém, um belo dia, estando no mesmo teatro onde a vira pela primeira vez, encontrei o homem que era seu amante, e logo perguntei quem era a bela dama que fazia companhia a ele naquela noite de ópera. Ele respondeu sorridente: - &lt;em&gt;"Ela é minha esposa, Frau Schreiber. Você gostou dela?"&lt;/em&gt; Eu fiquei enrubescido, relutei em responder, mas em minha inocência, respondi que sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele senhor que tinha um narizinho com a ponta vermelha, ostentava na face uns óculos com grandes aros cintilantes, abraçou-me e sentou-se a meu lado, dizendo: &lt;em&gt;- "Frau Schreiber é muito velha e muito grande para você, menino. Por que você não namora Miss Armstrong?"&lt;/em&gt; (apontando para ela, que estava tranqüilamente sentada na cadeira a frente). Eu até que gostei de Miss Armstrong! Ela era delicada, jovial, tinha um corpo reluzente, uma silhueta frágil, sua voz era suave como o uivar dos ventos, como o canto dos pássaros... Mas também dava gritos estridentes quando ficava nervosa!.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As minhas primeiras conversas com Miss Armstrong eram truncadas, era necessária muita sutileza no trato... Até que um dia eu descobri o ponto de equilíbrio para nossa relação... Aprendi a amá-la, a ponto de, ao estarmos juntos, parecermos um só corpo aos olhos dos que nos vislumbravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, devo ser sincero, não esquecia Frau Schreiber...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, sem que Miss Armstrong soubesse, fui ter com o senhor do nariz de rena, e ansiei por ver Frau Schreiber. Ele, sempre sorridente e compassivo, chamou-a para junto de nós; sentamos em sua sala, comemos bolo de cenoura e tomamos chá de morango, enquanto conversávamos a respeito de meu romance pueril por aquela distinta senhora alemã. Ela não falava português, e nossa conversa fora intermediada pelo senhor do nariz de rena... Eles até que tentaram tirar da minha cabeça aquilo, mas não conseguiram. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fui resoluto! Insisti em afirmar meu romance por Frau Schreiber... Até que ela teve uma brilhante idéia, que foi comunicada através de seu esposo: -&lt;em&gt; "Frau Schreiber tem uma sobrinha que está vindo da Alemanha, você não gostaria de conhecê-la? Ela é idêntica a tia em todos os quesitos, porém mais nova".&lt;/em&gt; Eu me animei com aquela perspectiva e fiquei no aguardo da chegada da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo contei toda verdade a Miss Armstrong, e para minha surpresa, a americaninha delicada consentiu humildemente com minha "bigamia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------00000000000--------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma manhã de sábado ensolarada, todos em casa esperavam ansiosamente a chegada da alemãnzinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das dez horas da manhã, o senhor do nariz de rena chegou trazendo ela, a "Frau Schreiberzinha"... Ela era linda, mais linda que a tia! Qual escultor no mundo seria capaz de esculpir tal obra magnífica? Tamanha perfeição nos traços! Naquele momento... Senti que era amor! Ainda saindo do elegante Mercedes-Benz que a trouxera, ela olhou para mim, e seus olhos também brilharam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não trocamos palavras... Logo nos abraçamos ternamente; senti seu perfume amadeirado, vislumbrei a prata que a adornava, senti na ponta dos dedos a textura rígida, envernizada e escorregadia de seu corpo, até que aconteceu nosso primeiro beijo, assim... Na frente de todos mesmo, sem pudor! Mordiscava sua língua (...) minhas tenras mãos percorriam impunemente as partes baixas e altas de seu igualmente tenro e fino corpo levemente avermelhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito para que ela emitisse os primeiros murmúrios... Ha! Como ela clamava sofregamente o &lt;em&gt;"Bolero"&lt;/em&gt; de &lt;em&gt;Maurice Ravel&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, nós somos casados e vivemos os três juntos: Eu, Miss. Armstrong, que é uma flauta, e Frau Schreiber, o "fagote - fêmea"... Em plena harmonia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Literalmente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------00000000000--------&lt;br /&gt;Schreiber do fabricante de meu fagote.&lt;br /&gt;Armstrong é o nome do fabricante americano de minha flauta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;___________________________&lt;br /&gt;© Copyright 2006&lt;br /&gt;Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem prévia autorização escrita do autor.&lt;br /&gt;Este texto está protegido por direitos autorais. A cópia não autorizada implica penalidades previstas na Lei 9.610/98.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32970607-115601846697010325?l=ocontistacronico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/feeds/115601846697010325/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32970607&amp;postID=115601846697010325&amp;isPopup=true' title='17 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115601846697010325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32970607/posts/default/115601846697010325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ocontistacronico.blogspot.com/2006/08/eu-frau-schreiber.html' title='Eu &amp; Frau Schreiber'/><author><name>otto M</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>17</thr:total></entry></feed>
